Arquivo do mês: julho 2005

E QUE PROSSIGA O SONHO…

(pra Sônia)
Quando essa foto foi tirada, há 25 anos, durante a fundação do Partido dos Trabalhadores, quando o Lula ainda ostentava barba cerrada e negra, era vivo o marido da Sônia, querida amiga, mãe da Manguaça, com quem a Dani falou hoje cedo pelo telefone. E lhe disse a Sônia: “Dani, estou muito triste… nem quero falar sobre isso…”, e desligou. Dani, preocupada, bateu o telefone pra Manguaça que confessou: “Mamãe está muito triste com tudo isso que está acontecendo com o PT…”.

E quero daqui, do Buteco, dizer à Sônia que quero ser convidado, ontem, de preferência, pra uma comidinha em sua casa, para que brindemos à preservação do sonho que ela, Sônia, e seu marido, que já partiu num rabo de foguete, dividiram há 25 anos. Para que eu diga a ela que a tristeza não deve prosperar. Para que eu diga a ela que essa cortina de fumaça não deve nos deixar esquecer que o mensalão no governo Sarney foi pago através da concessão de rádios pelo Brasil afora. Que o mensalão no governo FHC, um mentiroso-vaidoso, foi pago através de dinheiro vivo para que ele fosse mantido no poder, com propinas comprovadas de até 200 mil reais. Que a Vale do Rio Doce foi dada de presente por pouco mais de 3 bilhões de reais (recentemente avaliada em pouco mais de 40 bilhões de reais). Que o escândalo do SIVAM jamais foi esclarecido, que a farra do PROER jamais foi justificada, que o sistema TELEBRÁS foi entregue como a Vale do Rio Doce. Que o escândalo dos bancos Marka/FonteCindam, socorridos com quase 2 bilhões de reais pelo Governo Federal não deu em nada, e Cacciola vive tranqüilo, na Itália, até hoje. Que a base de Alcântara, no Maranhão, foi entregue aos EUA num acordo extremamente lesivo ao Brasil. Que centenas de trabalhadores sem-terra foram assassinados diante de um passivo Governo.

E quero dizer à Sônia, mais, que eventuais calhordas que mancham, hoje, a trajetória do PT, não merecem uma única lágrima sua, salgada, misturada com o suor de quem sonhou o sonho de um Brasil mais justo misturada, ainda, com as lágrimas que marcaram a despedida de seu companheiro.

Como a Sônia não é muderna a ponto de navegar por mares cibernéticos, que seja a Manguaça a portadora do meu recado. E esse meu recado acaba sendo a retribuição ao telefonema que recebi, da Sônia, quando da morte de Leonel Brizola. Foi, naquele momento, o telefonema, carinhosíssimo, de uma importância suprema pra mim, que sofria naquela noite os revezes que, talvez, ela sofra hoje.

Eu não quero fazer qualquer espécie de julgamento diante do que se vê hoje, naquele picadeiro em que se transformou a CPMI dos Correios. Mas quero dizer que me enoja ver bandidos como ACM e seu neto, Roberto Jefferson e outros comparsas, agindo como bastiões de uma lisura que jamais tiveram.

Lisura que ela, Sônia, tem aliada à doçura de seu sorriso, à franqueza de seu abraço e à delícia de sua cozinha. O convite, Sônia, não esqueça do convite! Vamos brindar ao sonho, que não deve morrer.

Até.

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>A VIAGEM DO BATISTA E O TERNO DO DEDECO

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Conforme o combinado, Batista ligou-me por volta das quatro da tarde de ontem e foi o mesmo monocórdio quando disse “Te vejo às sete no Roquinha”. E o Batista, que é de uma previsibilidade implacável, já estava à mesa quando apontei na esquina da General Roca e gritou meu nome como se não me visse há meses, os dois braços ao alto balançando qual um boneco inflável desses de posto de gasolina. Abraçou-me como se não me visse há anos e num ímpeto de gentileza, que denotou um nervosismo extremado, afastou a cadeira pra que eu me sentasse. “Marcou?”, perguntei. “Não. Vou viajar amanhã, às nove da manhã, e você vai me levar ao aeroporto, direto daqui.”, disse o Batista cravando a mão em meu bolso, pegando o maço de Carlton e o isqueiro. “Viajar?”, e eu não conseguia esconder o desapontamento. “Buenos Aires.”.

E o Batista contou-me seus planos. Estressado, triste com a separação e pressionado por Dirce, a viagem pra Buenos Aires lhe pareceu uma saída e tanto. Um amigo seu, de infância, estava morando na Argentina há uns cinco anos, separado também há coisa de um mês, e bastou um telefonema na noite anterior para que o convite fosse feito e imediatamente aceito.

O Batista pediu uma porção de lingüiça e dois chopes. E outro cigarro. E me disse que estava com as malas prontas, os clientes do consultório desmarcados pelos próximos três meses, e que contava comigo para a carona até o Galeão. E disse mais, que Dirce sabia de tudo e concordara com tudo. Disse-me que deixara com sua secretária uma procuração me nomeando seu advogado para que tratasse dos papéis da separação. Eu ouvia tudo, atônito, sabendo que meu papel, naquele momento, era apenas o de ouvinte. E fiquei ali, até às oito da noite, quando partimos em direção à pensão na Rua do Matoso a fim de pegarmos suas malas do couro, duas apenas, forradas com pano forte e brim cáqui. Batista acertou as diárias na recepção, fétida como o quarto, e partimos pro Capela por volta das dez da noite.

No trajeto até o Capela, Batista pediu-me o celular emprestado e fez uma ligação. “Dirce? Oi… você pode vir de carro até o Capela? (…) Estou com o Edu. (…) Tá bom… espero… você me leva cedo ao Galeão? (…) Beijo. (…) Eu também.”.

Lá chegando, atendeu-nos o Cícero. Dois chopes, uma porção de salaminho, e eu me despedi antes mesmo da chegada da Dirce. Desejei-lhe sorte e lhe pedi que mantivesse contato por email. E parti rumo ao Estephanio´s.

No Estephanio´s, mesa de cinco na varanda, já quase onze da noite: Fefê, Márcio Branco, Barroca (lê-se Barróca), um Juiz Federal e o Dedeco. Vou lhes descrever o Dedeco para depois explicar o por quê desse “Juiz Federal” sem nome.

O Dedeco vestia um sapato preto luminoso, “da Motex”, disse-me o Dedeco de pé. Terno preto, gravata cinza com listras diagonais pretas, uma camisa branca, “da Casa Alberto”, e um pulôver de lã, cinza, com gigantescos botões de madrepérola. Vejam que pompa.

E dando mais pompa à mesa, um Juiz Federal. Ou melhor, quase-um-Juiz-Federal, já que o amigo acaba de passar no concurso mas ainda não tomou posse. E ver o Dedeco diante de um Juiz Federal foi espetacular. Primeiro é preciso dizer que basta alguém passar num concurso para Juiz Federal (para Juiz, apenas, o Federal é meramente apêndice nesse caso) para que tudo mude. O chope vira uísque. As porções de salaminho, antes devastadas pelo candidato, viram porções de vieiras. Os “obas” e “olás” efusivos com que nos cumprimentavam o candidato, transformam-se num cerimonioso “como vais?” com a mão estendida. E o Dedeco, ali, esculhambava a liturgia do cargo.

“Vai trabalhar em que vara?”, e coçava o saco e guinchava de rir, o Dedeco.

Eu, sentado ali diante daqueles cinco, com a cabeça ainda voltada pro drama do Batista, divertia-me com a conversa non sense deles. Pedi chope ao Erasmo e um maço de Carlton, que o meu ficou com o Batista no Capela. E o Dedeco, tirando sarro com a cara do Juiz Federal, fez a proposição.

“Excelência… (e ria de cuspir o chope)… Ajude-me nessa tormentosa questão… A Polu, desde ontem, não mora mais lá em casa. Estou a precisar, urgentemente, de uma empregada. Mas penso que, depois de anos de luxúria, preciso mesmo é de uma mulher, e quando eu penso em mulher, penso imediatamente na mãe ideal para meus filhos. Penso que deve ser uma mulher culta, dessas que vão à FLIP ano após ano. Uma mulher que seja sommelier, que entenda de vinhos, de uvas, de safras, de bagos (e coçava acintosamente o saco de novo), que seja organizada, austera com as contas da casa… Vossa Excelência pode me ajudar?”.

O Fefê tinha a cabeça entre os joelhos de tanto rir. O Márcio Branco, aquela beleza humilhante, só dizia “você não presta, André”, o Barroca chorava de tanto que gargalhava, e o Juiz Federal bateu o martelinho imaginário e pediu silêncio.

“A Duda, meu caro, a Duda.”.

Fiquei ali, por uns cinco minutos tentando dizer alguma coisa. Como os cinco eram uma só gargalhada, e até mesmo o Erasmo e o Léo rolavam na calçada molhada de tanto que riam, fui embora.

Até.

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>O BATISTA NO SIRI

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Domingo às oito e meia da manhã acordei com o telefone gritando. Atendi num sem-pulo e era o Batista. Como bocejei antes mesmo do alô, o Batista desculpou-se como pôde e convocou-me, sem direito à réplica, pra um almoço no Siri, na Rua dos Artistas. Preciso confessar que não tinha a menor disposição de aceitar o convite, mas um assunto é um assunto, e então eu combinei ao meio-dia com o meu doce amigo.

Apontei na esquina meio-dia em ponto, e só vi as mãos do Batista, que o Batista, lembrem-se, saúda um amigo que chega como um náufrago em mar bravio, já sentando diante de meia dúzia de bolachas da Brahma. Olheiras profundas, cor de chumbo, as mãos trêmulas e aquele balbuciar lento e pesaroso, “sente-se, Edu…”. Sentei-me, e sentei-me excitadíssimo. “O que foi dessa vez?”, disse enquanto estalava os dedos chamando o garçom à mesa para pedir dois chopes e uma porção de camarão ao alho e óleo.

“Separei-me”, disse o Batista para então cair num chôro convulsivo. O chôro convulsivo do Batista é um espetáculo de sons e gestos. Guincha altíssimo, assôa o nariz sem cerimônia, a mão que recebe o muco nasal esfrega os olhos, despenteia os cabelos, e ali, enojado, esperei o amigo acalmar-se não sem antes sugerir uma ida ao banheiro para lavar as mãos. E obedeceu-me, o Batista, e eu já era, àquela altura, um curioso olímpico pelo novelo da história. Volta o Batista à mesa e senta-se à minha frente dizendo apenas, “vaca”.

“Vaca, quem?”, eu disse com os olhos cravados na espuma do meu chope. “A Dirce, Edu…”. Contou-me o desolado Batista que seu segundo casamento terminara depois de um telefonema da Dirce para sua mulher. Um telefonema daqueles. Com requintes de detalhes, todos confirmados pelo próprio Batista durante seu último jantar em casa. Confessou-me não ter o menor talento para mentiras, ardis, nada disso. Daí ouviu as queixas da mulher, comeu seu bife de fígado com purê de batatas de olhos baixos, assentindo com a cabeça as verdades que a resignada repetia, e foi ao quarto apenas para buscar as duas malas já feitas.

Está morando numa pensãozinha na Rua do Matoso.

Ocorre que a “vaca” não lhe sai da cabeça. Ocorre que a “vaca” tem feito visitas diárias ao fedido quarto onde está morando e mais, contou-me com um sorriso, o primeiro desde minha chegada, a “vaca” tem sido uma ninfomaníaca de lhe tirar o fôlego. Tem feito o Batista de joguete, a expressão é dele mesmo. E isso tem feito meu amigo feliz.

O consultório vai bem, não tem do que se queixar. O que lhe tem tirado o sono é justamente a fúria uterina da Dirce, sempre com uma nova idéia, quase-revolucionária, que inclui algemas, chicotes, botas com esporas no cano alto, mordaças, velas e cêra quente, um rol de deixar qualquer um abilolado.

Mas o pior, soube em seguida, estava mesmo por vir.

Batista me convocara com um único objetivo, além da novidade da separação.

Dirce estava a exigir um terceiro disposto a filmá-los.

“E pensei em você, Edu… Não confio em mais ninguém pra isso… Você topa?”.

Quando ele disse “você topa?” eu bati com as duas mãos na mesa derubando os dois chopes num “mas é claro!” que o deixou felicíssimo. E eu disse “quando? quando? quando vai ser isso?”.

Quando ele respondeu “ainda não sei, mas em breve”, meus olhos brilharam e ele notou. “Amanhã, você pode?”. E eu gritei de novo “mas é claro!” e pedimos a conta.

Batista ficou de me ligar hoje à tarde para um chope no Roquinha, o segundo lar do meu doce amigo, no final do dia.

Amanhã, obviamente, contarei tudo, com detalhes.

Até.

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>O DEDECO OFERECE EMPREGO

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É preciso que fechemos a semana, toda ela dedicada a esse espírito sem luz que é o Dedeco, com essa foto hedionda, de autoria do Cachorro, feita em Paraty no ano passado. Sei que corro o risco de chocar grande parte de meus leitores, eis que a foto é um horror visual dos piores. Percebam o pulôver que é o Dedeco, peludo como um homem de Neandertal, e percebam sua mão esquerda, oferecendo, mesmo durante o sono, o que ele tem de melhor, segundo ele próprio. E percebam, mais, a extensão da testa desse homem. Uma coisa, sinceramente, tétrica, pra dizer o mínimo.

E eu sei que isso pode lhes soar como mentira, mas não é. Ontem, durante breve passagem pelo Estephanio´s, deparei-me com um elegante Dedeco, de novo vindo de Petrópolis, acompanhado de um amigo cujo nome não sei, que saudou-me assim: “Veja quem está aí, Dedeco! Seu maior marqueteiro, o homem responsável por sua elevação ao mais alto degrau de sua vida!”, e abraçou-me, o Dedeco, escondendo, por trás do abraço, segundas intenções rapidamente expostas. Disse-me ele: “Edu, meu querido, obrigado mais uma vez por tudo o que você tem feito por mim! O pessoal tá que tá, é delivery todo dia lá em casa, valeu mesmo. Posso te pedir um favorzaço?”. Não para ser gentil, mas para obter mais informações sobre sua vida espúria, assenti com a cabeça, pedi uma Original ao Erasmo e sentei-me diante dele.

Pausa para breve comercial: desde ontem o Estephanio´s oferece, geladíssimas e a preço módico, Original e Bohemia.

Antes, uma explicação.

O Dedeco divide apartamento com uma moça, coitada, que atende pelo nome de Polu. A Polu, muito mais que dividir as despesas do dia-a-dia com o André, exerce a função de faxineira, já que, disse-me ela, o André é um porco. É Polu quem arruma seu quarto, lava suas roupas, ajeita seus livros, seus discos, quem lhe ministra os remédios, enfim, uma “empregada de mão cheia”, que foi assim que o gentilíssimo Dedeco apresentou-me a ela.

E a Polu, coitada de novo, justamente por morar com o André, é vítima de vodus africanos, trabalhos pesados nas encruzilhadas da Tijuca, já que o “pessoal” a inveja de maneira desonesta. E os trabalhos são, eu mesmo já os vi, mais de uma vez diante do prédio do André, praticamente assinados. O último deles era composto de um alguidar com galinha, uma cumbuca com farofa preta e uma garrafa de Valontanno Tannat. Pigarreio e prossigo.

Mas contou-me o Dedeco que a Polu está de mudança marcada pois vai casar-se. E seu desespero diante disso não vem por causa do aluguel, da luz, do telefone, do condomínio e do IPTU. Vem por causa da ausência anunciada da serviçal. E pediu-me, o Dedeco, que oferecesse a vaga de empregada aqui no Buteco. Disse, mais, vejam como é baixo esse espírito sem luz, que oferece “casa, comida, rôdo e espanador de cabo longo”. Como se vê, fino, como sempre, o André. Pediu que as candidatas ofereçam seus serviços através dos comentários a esse texto. Prometeu-me ler tudo e responder um a um. Está cumprida a promessa, embusteiro. Vamos prosseguir.

Eu ontem lhes prometi contar sobre passagens do André Menezes no Colégio Militar, onde estudou. E quando eu soube disso, minha imaginação construiu a visão de um André, ainda petiz, caminhando, já careca (que o André jamais teve cabelo na parte superior do crânio), pelas alamedas do Colégio Militar. E quem me contou o mais significante episódio da vida militar do Dedeco foi um coronel, que atende pelo pomposo nome de Peniche, com quem esbarrei, dia desses, no buteco em frente ao Colégio, na esquina das ruas São Francisco Xavier e General Canabarro. Aliás, o buteco é um arremesso ao passado. Ostenta, ainda, um letreiro oval onde se lê “Grapette”. Vejam que antigüidade.

Lá, entre um gole e outro de Pau Pereira, o Pepê, como é conhecido o coronel (aliás, ele pareceu-me, naquele dia, idêntico ao Coronel Mostarda, do jogo “Detetive”, vejam como sôo antigo hoje), inquirido sobre um ex-aluno chamado André Menezes, foi um excitado narrador de histórias.

E quero destacar uma, a que me pareceu mais emblemática.

O André, contou-me o Pepê, era um aluno triste e envergonhado em suas primeiras semanas no Colégio Militar. Não suportava as piadas dos colegas, alunos dos ex-torturadores do regime, que o apontavam como “aeroporto de mosquito”, “careca peludo” e outras graças.

Até que veio o dia da glória para o André.

Era sábado, e fazia um calor senegalês.

Os alunos estavam em forma, cantando o Hino Nacional, na abertura da cerimônia mais esperada por todo novo aluno do Colégio: a Entrega das Boinas.

E o André Menezes, número 1 na lista de chamada, foi o primeiro a ser chamado ao púlpito pelo Diretor. E quando cravaram, na cabeça do Dedeco, a boina de feltro vermelho, ele foi um menino iluminado pela chama da vingança. Dirigiu um olhar de ódio aos colegas e de ampla satisfação por saber-se, dali em diante, um igual, apenas com o chumaço de cabelo sobre a nuca exposto. E nunca mais, durante os quatro anos em que lá estudou, o André tirou a boina. Nem pra tomar banho, frisou o Pepê entornando outro copo de Pau Pereira.

Estudando, tendo aulas de cavalgada, nas atividades de Educação Física, lá estava o Dedeco com sua boina vermelha ocultando sua calvície precoce.

Vale-se até hoje, o embusteiro, desse expediente. Quando leva uma moça pra casa, dá um jeito de contar que estudou no Colégio Militar. E a moça, interessada, ouve: “Quer ver minha boina vermelha, querida?”.

Até.

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>DEDECO, UM BECO SEM SAÍDA

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Escrever diariamente requer mais que tempo e paciência. Escrever diariamente exige imaginação fértil e algum talento que aponte para um tema minimamente interessante. Vai daí que ontem à noite a Dani postou-se diante de mim e disse, “Chega de Dedeco, né? Não é justo expor, diariamente, as chagas morais do André. Além de tudo, cansa.”. E eu ia, juro que ia, atendê-la. Mas deparei-me com os dezoito comentários no texto “O Dedeco é médium”. O que por si só já dá ampla aparência de verdade a uma afirmação que fiz ontem mesmo: o Dedeco é um assunto. E sendo, portanto, o André Menezes, um assunto, vamos continuar na mesma trilha, ou melhor, no mesmo beco, e sem saída. Digo “sem saída” por que fiquei à noite, depois do apelo da Dani, pensando numa forma de livrar-me desse elemento que ocupa, há dias, há semanas, eu quase que posso dizer há meses, o Buteco. E as visitas só fazem crescer, é recorde atrás de recorde, isso pra não dizer que o próprio André Menezes ligou-me de Petrópolis somente pra dizer, num recado deixado na secretária eletrônica do celular, “Edu, obrigado. Continue falando de mim.”, e eu ouvia gemidos durante o recado, vejam vocês. O Buteco, e isso reforça a teoria do Celsinho, de que o Buteco é responsável direto pela guinada na vida do André Menezes, tem rendido fama ao André, que passou a ser cobiçado como se fosse um Márcio Branco, dono de uma beleza implacável, inapelável, definitiva.

Vocês vejam uma coisa que dá bem a dimensão que tomou o embusteiro. O Estephanio´s organizará, em agosto, mais uma excursão à Paraty, rumo ao Festival da Pinga que a cidade promove há anos. Tinha, o Fefê, o organizador de tudo (ônibus, hotéis, as divisões dos quartos etc etc etc), até a quinta-feira passada, meio ônibus fechado apenas. Veio a quinta-feira e eu falei sobre o Dedeco. Veio a segunda, a terça, a quarta, e eu falei do Dedeco. E ontem à noite o Fefê já tinha seis – eu disse seis – ônibus lotados, e lotados de mulheres.

Dado mais-que-curioso é que o Dedeco é que é o destino dessas moças. Ninguém chega pro Fefê e pergunta sequer o preço. O hotel, qual é. A pousada, aonde fica. O passeio de barco, se vai haver. Elas só querem saber se o André Menezes vai.

E o André Menezes vai (e mesmo antes de sua confirmação, um Fefê, craque do marketing, já dizia sorrindo pras moças um “claro que vai, querida” que as deixava ensopadas, de pingar, diante dele).

Fez, o André, o Fefê contou-me ontem, sua reserva para um quarto duplo.

E há, hoje, no Estephanio´s, um burburinho, um falatório, uma briga tremenda pela vaga no quarto do André Menezes.

O que nenhuma delas sabe, e talvez tenhamos hoje mesmo o cancelamento de todas as reservas (o que, a bem da verdade, já seria um lucro, eis que a primeira parcela não será devolvida a ninguém), é que o Dedeco dividirá o quarto com o Marquinho, um de seus discípulos mais devotados, repetindo, assim, a formação do quarto dos últimos anos. Aliás, quero me corrigir. O quarto sempre foi de três: Dedeco, Flavinho e Marquinho.

Como o Flavinho está, hoje, casado com a Betinha, e morando no Flamengo depois que abandonou seu quitinete no Cachambi (o que faz dele um alpinista social de mão cheia), o Xerife não dividirá quarto com o André.

Aliás, eu disse que o Marquinho é um discípulo devotado do Dedeco e preciso lhes contar que essa devoção chega às raias da moda: o Marquinho também é usuário contumaz de uma calça jeans surrada, de uma camisa de malha preta e somente o calçado os diferencia nesse quesito, eis que o Marquinho calça um tênis tão sujo quanto os do Dalton, recusando-se terminantemente a usar sandálias de dedo, o que sugere que seu pé deve ser um horror visual.

Mas enfim – percebam como estou perdido, num beco sem saída – aguardemos a evasão das reservas, conto-lhes tudo amanhã. E amanhã, também, fechando essa semana inteiramente dedicada a esse aleijado moral, lhes conto sobre a performance do André Menezes durante seu período no Colégio Militar.

Até.

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>O DEDECO É MÉDIUM

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Antes de iniciarem a leitura de hoje, estaquem os olhos na foto.

Essa é a camisa preta de malha a que sempre me refiro quando menciono o antigo guarda-roupa do Dedeco, composto apenas pela tal camisa, por uma surrada calça jeans e por um par fétido de sandálias de dedo. E reparem a expressão desse homem: olhos cravados na partitura, Dedeco está cantando a única canção que sabe, e que sabe de cor e salteado, o que faz dos olhos cravados na partitura mais um de seus truques, esse para denotar atenção, profissionalismo, concentração, tudo mentira. A canção é “Kiss me quick”, que o Dedeco cantou, durante meses, como convidado especial (mais uma de suas ardilosas armações que deu certo) da StefiBand, hoje desfeita e por uma razão estarrecedora. Na única apresentação da banda na qual o Dedeco não pôde ir, as mulheres, em fúria, arrebentaram amplificadores, roeram fios, destruiram microfones, atiraram chope e bolinhos de carne em direção aos músicos. Mas vamos em frente.

Quero lhes dizer, antes, que o Dedeco não é, como o Szegeri, como o Batista, como o Leonardo Huguenin, como o Neco, como o Vidal, uma obsessão, que são necessárias as obsessões para que os personagens ganhem forma diante dos leitores, como ectoplasma vazando do monitor. O Dedeco é um caso de estudo. E como eu sou um sujeito além de obsessivo, estudioso, muito me apraz essa ampla debruçada sobre esse homem que, leiam os comentários, tem merecido de seus amigos os adjetivos mais repugnantes: espírito sem luz, despido de alma, flagelo do mundo feminino, e por aí. Não que eu não me inclua entre seus amigos, mas o conheço há bem menos tempo que esses, Flavinho, Felipe, Celsinho, que tem anos de André Menezes nas costas e, portanto, mais autoridade sobre o assunto (que o Dedeco é um assunto, sem dúvidas).

E prosseguindo esse amplo estudo sobre essa personalidade desviada que o Dedeco é, me veio à mente essa faceta do embusteiro. Quando eu digo faceta nem consigo pensar numa figura geométrica, e explico.

Tivesse o Dedeco três facetas, e eu diria que ele é um triângulo. Quatro, um quadrado. E por aí vai. Mas como estou diante de um homem cujas facetas são incontáveis, como estou diante de um objeto de estudo capaz de enlouquecer quem o pretende compreender em matéria de variedade de estilos e comportamentos, não posso valer-me desse expediente. O Dedeco é amorfo, portanto. E tenhamos ele, hoje, na forma como se apresenta na foto. Aliás, quando eu falei em ectoplasma, me veio uma luz. O Dedeco, como o ectoplasma, assume a forma mais conveniente, e sempre com o mesmo vil objetivo. Agradar “um pessoal”, que é, pasmem, como o Dedeco se refere às mulheres.

Sentar com o Dedeco à mesa e ouvi-lo falar sobre suas mulheres – que não são poucas – é assistir a um desfile de frases neoclássicas como “comi um pessoal ontem de responsa”, “conheci um pessoal ontem, no metrô, que vou te dizer…”, “hoje não vou sair porque um pessoal vai lá em casa dar pra mim”, e outras gentilezas tijucanas.

Como eu ia dizendo, tenhamos nosso Dedeco, hoje, na forma como se apresenta na foto. A cabeça brilhante, como a de um Marcos Valério, a camisa de malha preta como a segunda pele, a boca em forma de bico no meio de um verso (e nesse momento eu penso que ele canta “kiss me quick because I love you so”), os olhos forjando atenção quando, o que pretendia, na verdade, era apenas impressionar a assistência feminina.

E já que estamos falando do Dedeco cantando, é preciso expôr as maldades que vêm do André. Quando havia show, André Menezes era o primeiro a chegar. Sentado num canto, aguardava a presa, “um pessoal que valha a pena”, disse-me ele certo dia. E dava um jeito de sentar-se à mesa com a moça. Pedia dois chopes, que ele mesmo pagava, uma porção de tremoços, moela, um troço desses, e danava a chorar a certa altura (valia-se de uma tática suja, chegando o fio de fumaça de seu cigarro bem junto aos olhos que, irritados e vermelhos, vertiam água, e fungava como um javali gripado para dar veracidade à cena). A moça, invariavelmente (o embusteiro nunca deu ponto sem nó), com a mãozinha pousada sobre o braço peludo do Dedeco, perguntava preocupada, “O que foi, André?”.

E ele apenas dizia, “nada”, e atravessava a rua correndo, pedindo licença, dizendo que não iria demorar, e entrava pelo portão principal do centro espírita em frente ao Estephanio´s, o Discípulos de Samuel. Agachado atrás do portão, Dedeco acendia outro cigarro, repetia seu ritual de imolação da córnea, e quando estava inchado de tanto fungar, com os olhos em brasa, voltava de cabeça baixa à mesa. A moça, àquela altura, ou melhor, “o pessoal”, já estava no papo.

Daí o André Menezes pedia mais dois chopes. E descia o verbo: “Sabe, querida… Eu sou médium… (nessa hora, os olhos da menina eram duas caçapas)… descobri há uns meses, sabe? (e fungava)… E descobri que o espírito do Elvis é meu obsessor… ´cê sabe o que é obsessão?”

Quando a menina sabia, ele emendava de primeira. Quando não sabia, inventava um troço qualquer, bem coerente e prosseguia: “Pois é… sei lá por que ele foi escolher logo a mim… Vai ver que é porque tenho todos os seus discos, fitas de vídeo, DVD… Sei lá. E lá no centro, por isso fui até lá, pra eles me darem um passe, (por dentro, o Dedeco ria de comprimir o fígado e o baço), eles me disseram que eu só conseguiria exorcizá-lo, levar luz até ele, cantando suas canções durante o show de meus amigos, incorporado, sabe?”

E quase sempre a moça sabia do que ele falava. Hoje, quando a Universal do Reino de Deus promove sessões de desobsessão ao vivo, pela TV, todo mundo sabe o que é isso.

Daí ele pedia mais chopes, mais moelinha, fazia uns carinhos no braço da menina e esperava o vocalista chamar, “Agora, com vocês… Dedeco!”.

E dava-se o espetáculo.

Mal acabava o número, ainda durante os gritos de bis das viúvas do Dedeco, que são muitas, ele chegava “pro pessoal” e fazia um convitinho pra sua alcova, na Conde de Bonfim, pra ouvir um CD, assistir um DVD etc etc etc

Na noite seguinte, à mesa, o mesmo intróito entre nós: “Porra, Edu, papei um pessoal lá em casa ontem que vô te contar!”.

Até.

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>O DEDECO EM PETRÓPOLIS

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O Dedeco bateu o telefone pra mim na tarde de ontem. Como o BINA o denunciou, já atendi com as gentilezas de praxe, impublicáveis. E ele foi uma sonora gargalhada depois do “Faaaaaaaaala, Edu…”, que está para o André Menezes como o “bem, amigos” para o Galvão Bueno e o “alô, você!” pro Fernando Vanucci.

Disse-me, tossindo, que o André tosse com um vigor tísico, que estava em Petrópolis, de novo. E que gostaria de contar-me um “interessante detalhe”.

André Menezes está trabalhando, há uma semana, na Casa do Barão de Mauá, na cidade serrana, hoje sede do Executivo Municipal.

E como eu conheço a Casa do Barão de Mauá, a da foto, quando despedi-me do Dedeco meu imaginário foi uma delícia visual impressionante. Eu via o Dedeco, de terno, gravata, casacão, espetando a verde grama dos jardins com a vigorosa ponta de seu gigantesco guarda-chuva, passeando próximo à grade que separa a portentosa construção em estilo neoclássico, acenando pras moças na calçada. Via o Dedeco, tragando seu cigarrinho que lhe amarela o dedo indicador, com uma das mãos postadas no gradil da sacada, tramando planos sórdidos que seguramente estão por trás de sua recente elegância.

Tentei arrancar, durante o breve telefonema, alguma pista que me indicasse seu objetivo, já que apenas um incauto crê que, de um dia para o outro, o André aposentou a surrada calça jeans e a camisa preta de malha, e a fétida sandália de dedo, por um terno, uma gravata, um casacão, um guarda-chuva e sapatos italianos apenas em busca de pose e de porte.

E esbarrei, também na tarde de ontem, com um Celsinho sorridente no Buraco do Lume, no Centro da cidade. Contou-me que acompanha, atento, as mal traçadas linhas do Buteco. E disse-me que é, o Buteco, o principal responsável pela guinada na vida do André. Tendo estudado com o André na faculdade, Celsinho contou-me que o André levava vida pacata quando mais moço. Gordo, já careca, “não pegava ninguém”, foi essa sua expressão. Vinte quilos mais magro, dono de farta cabeleira (jamais se esqueçam que o Dedeco, quando emagreceu, deixou de ser gordo e deixou também de ser careca, provando que sua calvície era apenas o apêndice de sua obesidade), Dedeco hoje é “um pegador”, a expressão é dele de novo. E segundo o Celsinho, o novo guarda-roupas do Dedeco indica que ele tem, como recente alvo, moças de um extrato social ligeiramente mais elevado. E contou-me interessante episódio.

Ano passado, a Duda resolveu fazer um churrasquinho em sua casa, em Teresópolis. Preciso lhes explicar o que significa um “churrasquinho em Teresópolis”, na casa da Duda.

As pessoas são convidadas, por email. Duda fecha sua lista de convidados e anuncia que fará umas comprinhas, que serão devidamente rateadas por todos.

E no dia do churrasquinho, quando todos os convidados saltitavam nos jardins da casa, uma Duda eriçada sai de dentro de casa com uma resma nas mãos e sai distribuindo aos convidados a cópia da nota das “comprinhas”, que inclui mantimentos capazes de manter uma família por 30 dias. Acuados, os convidados vão depositando, um a um, o dinheiro e os cheques na cestinha de palha que pende do braço da Duda. Neste dia, contou-me o Celsinho, Dedeco fumava seu cigarrinho apoiado numa estátua ao lado da piscina de água natural. E percebeu uma moça desolada com o achaque. Aproximou-se. E apresentou-se. Era, ficou sabendo nos primeiros cinco minutos de conversa, uma amiga de infância da Duda, moradora de Petrópolis, de uma das mais abastadas famílias da serra fluminense, parente em linha reta do Barão de Mauá.

Solteira, feia como o cão, Valéria encantou-se com a gentileza do Dedeco, que recolheu seu cheque da cestinha de palha que pendia do bracinho da Duda, pagando, o Dedeco, as despesas dos dois. E Valéria foi um “oh” e um “ah” de fazer sorrir a estátua na qual André ainda se apoiava.

Valéria, que mora na propriedade que faz fronteira com os jardins do Palácio em Petrópolis – a Casa do Barão de Mauá, seu trisavô – tem tido surtos de umidade ao ver o André com aquela pose de fundador do Banco do Brasil, girando sua pemba – o guarda-chuva – no gramado da mansão.

Um golpe neoclássico, como se vê.

Voltando, o Dedeco, o inquirirei de forma torpe no Estephanio´s, com o auxílio – que peço daqui, de público – do Flavinho e de sua pistola, a fim de novidades.

Até.

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