Arquivo do mês: julho 2005

>O DEDECO OFERECE EMPREGO

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É preciso que fechemos a semana, toda ela dedicada a esse espírito sem luz que é o Dedeco, com essa foto hedionda, de autoria do Cachorro, feita em Paraty no ano passado. Sei que corro o risco de chocar grande parte de meus leitores, eis que a foto é um horror visual dos piores. Percebam o pulôver que é o Dedeco, peludo como um homem de Neandertal, e percebam sua mão esquerda, oferecendo, mesmo durante o sono, o que ele tem de melhor, segundo ele próprio. E percebam, mais, a extensão da testa desse homem. Uma coisa, sinceramente, tétrica, pra dizer o mínimo.

E eu sei que isso pode lhes soar como mentira, mas não é. Ontem, durante breve passagem pelo Estephanio´s, deparei-me com um elegante Dedeco, de novo vindo de Petrópolis, acompanhado de um amigo cujo nome não sei, que saudou-me assim: “Veja quem está aí, Dedeco! Seu maior marqueteiro, o homem responsável por sua elevação ao mais alto degrau de sua vida!”, e abraçou-me, o Dedeco, escondendo, por trás do abraço, segundas intenções rapidamente expostas. Disse-me ele: “Edu, meu querido, obrigado mais uma vez por tudo o que você tem feito por mim! O pessoal tá que tá, é delivery todo dia lá em casa, valeu mesmo. Posso te pedir um favorzaço?”. Não para ser gentil, mas para obter mais informações sobre sua vida espúria, assenti com a cabeça, pedi uma Original ao Erasmo e sentei-me diante dele.

Pausa para breve comercial: desde ontem o Estephanio´s oferece, geladíssimas e a preço módico, Original e Bohemia.

Antes, uma explicação.

O Dedeco divide apartamento com uma moça, coitada, que atende pelo nome de Polu. A Polu, muito mais que dividir as despesas do dia-a-dia com o André, exerce a função de faxineira, já que, disse-me ela, o André é um porco. É Polu quem arruma seu quarto, lava suas roupas, ajeita seus livros, seus discos, quem lhe ministra os remédios, enfim, uma “empregada de mão cheia”, que foi assim que o gentilíssimo Dedeco apresentou-me a ela.

E a Polu, coitada de novo, justamente por morar com o André, é vítima de vodus africanos, trabalhos pesados nas encruzilhadas da Tijuca, já que o “pessoal” a inveja de maneira desonesta. E os trabalhos são, eu mesmo já os vi, mais de uma vez diante do prédio do André, praticamente assinados. O último deles era composto de um alguidar com galinha, uma cumbuca com farofa preta e uma garrafa de Valontanno Tannat. Pigarreio e prossigo.

Mas contou-me o Dedeco que a Polu está de mudança marcada pois vai casar-se. E seu desespero diante disso não vem por causa do aluguel, da luz, do telefone, do condomínio e do IPTU. Vem por causa da ausência anunciada da serviçal. E pediu-me, o Dedeco, que oferecesse a vaga de empregada aqui no Buteco. Disse, mais, vejam como é baixo esse espírito sem luz, que oferece “casa, comida, rôdo e espanador de cabo longo”. Como se vê, fino, como sempre, o André. Pediu que as candidatas ofereçam seus serviços através dos comentários a esse texto. Prometeu-me ler tudo e responder um a um. Está cumprida a promessa, embusteiro. Vamos prosseguir.

Eu ontem lhes prometi contar sobre passagens do André Menezes no Colégio Militar, onde estudou. E quando eu soube disso, minha imaginação construiu a visão de um André, ainda petiz, caminhando, já careca (que o André jamais teve cabelo na parte superior do crânio), pelas alamedas do Colégio Militar. E quem me contou o mais significante episódio da vida militar do Dedeco foi um coronel, que atende pelo pomposo nome de Peniche, com quem esbarrei, dia desses, no buteco em frente ao Colégio, na esquina das ruas São Francisco Xavier e General Canabarro. Aliás, o buteco é um arremesso ao passado. Ostenta, ainda, um letreiro oval onde se lê “Grapette”. Vejam que antigüidade.

Lá, entre um gole e outro de Pau Pereira, o Pepê, como é conhecido o coronel (aliás, ele pareceu-me, naquele dia, idêntico ao Coronel Mostarda, do jogo “Detetive”, vejam como sôo antigo hoje), inquirido sobre um ex-aluno chamado André Menezes, foi um excitado narrador de histórias.

E quero destacar uma, a que me pareceu mais emblemática.

O André, contou-me o Pepê, era um aluno triste e envergonhado em suas primeiras semanas no Colégio Militar. Não suportava as piadas dos colegas, alunos dos ex-torturadores do regime, que o apontavam como “aeroporto de mosquito”, “careca peludo” e outras graças.

Até que veio o dia da glória para o André.

Era sábado, e fazia um calor senegalês.

Os alunos estavam em forma, cantando o Hino Nacional, na abertura da cerimônia mais esperada por todo novo aluno do Colégio: a Entrega das Boinas.

E o André Menezes, número 1 na lista de chamada, foi o primeiro a ser chamado ao púlpito pelo Diretor. E quando cravaram, na cabeça do Dedeco, a boina de feltro vermelho, ele foi um menino iluminado pela chama da vingança. Dirigiu um olhar de ódio aos colegas e de ampla satisfação por saber-se, dali em diante, um igual, apenas com o chumaço de cabelo sobre a nuca exposto. E nunca mais, durante os quatro anos em que lá estudou, o André tirou a boina. Nem pra tomar banho, frisou o Pepê entornando outro copo de Pau Pereira.

Estudando, tendo aulas de cavalgada, nas atividades de Educação Física, lá estava o Dedeco com sua boina vermelha ocultando sua calvície precoce.

Vale-se até hoje, o embusteiro, desse expediente. Quando leva uma moça pra casa, dá um jeito de contar que estudou no Colégio Militar. E a moça, interessada, ouve: “Quer ver minha boina vermelha, querida?”.

Até.

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>DEDECO, UM BECO SEM SAÍDA

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Escrever diariamente requer mais que tempo e paciência. Escrever diariamente exige imaginação fértil e algum talento que aponte para um tema minimamente interessante. Vai daí que ontem à noite a Dani postou-se diante de mim e disse, “Chega de Dedeco, né? Não é justo expor, diariamente, as chagas morais do André. Além de tudo, cansa.”. E eu ia, juro que ia, atendê-la. Mas deparei-me com os dezoito comentários no texto “O Dedeco é médium”. O que por si só já dá ampla aparência de verdade a uma afirmação que fiz ontem mesmo: o Dedeco é um assunto. E sendo, portanto, o André Menezes, um assunto, vamos continuar na mesma trilha, ou melhor, no mesmo beco, e sem saída. Digo “sem saída” por que fiquei à noite, depois do apelo da Dani, pensando numa forma de livrar-me desse elemento que ocupa, há dias, há semanas, eu quase que posso dizer há meses, o Buteco. E as visitas só fazem crescer, é recorde atrás de recorde, isso pra não dizer que o próprio André Menezes ligou-me de Petrópolis somente pra dizer, num recado deixado na secretária eletrônica do celular, “Edu, obrigado. Continue falando de mim.”, e eu ouvia gemidos durante o recado, vejam vocês. O Buteco, e isso reforça a teoria do Celsinho, de que o Buteco é responsável direto pela guinada na vida do André Menezes, tem rendido fama ao André, que passou a ser cobiçado como se fosse um Márcio Branco, dono de uma beleza implacável, inapelável, definitiva.

Vocês vejam uma coisa que dá bem a dimensão que tomou o embusteiro. O Estephanio´s organizará, em agosto, mais uma excursão à Paraty, rumo ao Festival da Pinga que a cidade promove há anos. Tinha, o Fefê, o organizador de tudo (ônibus, hotéis, as divisões dos quartos etc etc etc), até a quinta-feira passada, meio ônibus fechado apenas. Veio a quinta-feira e eu falei sobre o Dedeco. Veio a segunda, a terça, a quarta, e eu falei do Dedeco. E ontem à noite o Fefê já tinha seis – eu disse seis – ônibus lotados, e lotados de mulheres.

Dado mais-que-curioso é que o Dedeco é que é o destino dessas moças. Ninguém chega pro Fefê e pergunta sequer o preço. O hotel, qual é. A pousada, aonde fica. O passeio de barco, se vai haver. Elas só querem saber se o André Menezes vai.

E o André Menezes vai (e mesmo antes de sua confirmação, um Fefê, craque do marketing, já dizia sorrindo pras moças um “claro que vai, querida” que as deixava ensopadas, de pingar, diante dele).

Fez, o André, o Fefê contou-me ontem, sua reserva para um quarto duplo.

E há, hoje, no Estephanio´s, um burburinho, um falatório, uma briga tremenda pela vaga no quarto do André Menezes.

O que nenhuma delas sabe, e talvez tenhamos hoje mesmo o cancelamento de todas as reservas (o que, a bem da verdade, já seria um lucro, eis que a primeira parcela não será devolvida a ninguém), é que o Dedeco dividirá o quarto com o Marquinho, um de seus discípulos mais devotados, repetindo, assim, a formação do quarto dos últimos anos. Aliás, quero me corrigir. O quarto sempre foi de três: Dedeco, Flavinho e Marquinho.

Como o Flavinho está, hoje, casado com a Betinha, e morando no Flamengo depois que abandonou seu quitinete no Cachambi (o que faz dele um alpinista social de mão cheia), o Xerife não dividirá quarto com o André.

Aliás, eu disse que o Marquinho é um discípulo devotado do Dedeco e preciso lhes contar que essa devoção chega às raias da moda: o Marquinho também é usuário contumaz de uma calça jeans surrada, de uma camisa de malha preta e somente o calçado os diferencia nesse quesito, eis que o Marquinho calça um tênis tão sujo quanto os do Dalton, recusando-se terminantemente a usar sandálias de dedo, o que sugere que seu pé deve ser um horror visual.

Mas enfim – percebam como estou perdido, num beco sem saída – aguardemos a evasão das reservas, conto-lhes tudo amanhã. E amanhã, também, fechando essa semana inteiramente dedicada a esse aleijado moral, lhes conto sobre a performance do André Menezes durante seu período no Colégio Militar.

Até.

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>O DEDECO É MÉDIUM

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Antes de iniciarem a leitura de hoje, estaquem os olhos na foto.

Essa é a camisa preta de malha a que sempre me refiro quando menciono o antigo guarda-roupa do Dedeco, composto apenas pela tal camisa, por uma surrada calça jeans e por um par fétido de sandálias de dedo. E reparem a expressão desse homem: olhos cravados na partitura, Dedeco está cantando a única canção que sabe, e que sabe de cor e salteado, o que faz dos olhos cravados na partitura mais um de seus truques, esse para denotar atenção, profissionalismo, concentração, tudo mentira. A canção é “Kiss me quick”, que o Dedeco cantou, durante meses, como convidado especial (mais uma de suas ardilosas armações que deu certo) da StefiBand, hoje desfeita e por uma razão estarrecedora. Na única apresentação da banda na qual o Dedeco não pôde ir, as mulheres, em fúria, arrebentaram amplificadores, roeram fios, destruiram microfones, atiraram chope e bolinhos de carne em direção aos músicos. Mas vamos em frente.

Quero lhes dizer, antes, que o Dedeco não é, como o Szegeri, como o Batista, como o Leonardo Huguenin, como o Neco, como o Vidal, uma obsessão, que são necessárias as obsessões para que os personagens ganhem forma diante dos leitores, como ectoplasma vazando do monitor. O Dedeco é um caso de estudo. E como eu sou um sujeito além de obsessivo, estudioso, muito me apraz essa ampla debruçada sobre esse homem que, leiam os comentários, tem merecido de seus amigos os adjetivos mais repugnantes: espírito sem luz, despido de alma, flagelo do mundo feminino, e por aí. Não que eu não me inclua entre seus amigos, mas o conheço há bem menos tempo que esses, Flavinho, Felipe, Celsinho, que tem anos de André Menezes nas costas e, portanto, mais autoridade sobre o assunto (que o Dedeco é um assunto, sem dúvidas).

E prosseguindo esse amplo estudo sobre essa personalidade desviada que o Dedeco é, me veio à mente essa faceta do embusteiro. Quando eu digo faceta nem consigo pensar numa figura geométrica, e explico.

Tivesse o Dedeco três facetas, e eu diria que ele é um triângulo. Quatro, um quadrado. E por aí vai. Mas como estou diante de um homem cujas facetas são incontáveis, como estou diante de um objeto de estudo capaz de enlouquecer quem o pretende compreender em matéria de variedade de estilos e comportamentos, não posso valer-me desse expediente. O Dedeco é amorfo, portanto. E tenhamos ele, hoje, na forma como se apresenta na foto. Aliás, quando eu falei em ectoplasma, me veio uma luz. O Dedeco, como o ectoplasma, assume a forma mais conveniente, e sempre com o mesmo vil objetivo. Agradar “um pessoal”, que é, pasmem, como o Dedeco se refere às mulheres.

Sentar com o Dedeco à mesa e ouvi-lo falar sobre suas mulheres – que não são poucas – é assistir a um desfile de frases neoclássicas como “comi um pessoal ontem de responsa”, “conheci um pessoal ontem, no metrô, que vou te dizer…”, “hoje não vou sair porque um pessoal vai lá em casa dar pra mim”, e outras gentilezas tijucanas.

Como eu ia dizendo, tenhamos nosso Dedeco, hoje, na forma como se apresenta na foto. A cabeça brilhante, como a de um Marcos Valério, a camisa de malha preta como a segunda pele, a boca em forma de bico no meio de um verso (e nesse momento eu penso que ele canta “kiss me quick because I love you so”), os olhos forjando atenção quando, o que pretendia, na verdade, era apenas impressionar a assistência feminina.

E já que estamos falando do Dedeco cantando, é preciso expôr as maldades que vêm do André. Quando havia show, André Menezes era o primeiro a chegar. Sentado num canto, aguardava a presa, “um pessoal que valha a pena”, disse-me ele certo dia. E dava um jeito de sentar-se à mesa com a moça. Pedia dois chopes, que ele mesmo pagava, uma porção de tremoços, moela, um troço desses, e danava a chorar a certa altura (valia-se de uma tática suja, chegando o fio de fumaça de seu cigarro bem junto aos olhos que, irritados e vermelhos, vertiam água, e fungava como um javali gripado para dar veracidade à cena). A moça, invariavelmente (o embusteiro nunca deu ponto sem nó), com a mãozinha pousada sobre o braço peludo do Dedeco, perguntava preocupada, “O que foi, André?”.

E ele apenas dizia, “nada”, e atravessava a rua correndo, pedindo licença, dizendo que não iria demorar, e entrava pelo portão principal do centro espírita em frente ao Estephanio´s, o Discípulos de Samuel. Agachado atrás do portão, Dedeco acendia outro cigarro, repetia seu ritual de imolação da córnea, e quando estava inchado de tanto fungar, com os olhos em brasa, voltava de cabeça baixa à mesa. A moça, àquela altura, ou melhor, “o pessoal”, já estava no papo.

Daí o André Menezes pedia mais dois chopes. E descia o verbo: “Sabe, querida… Eu sou médium… (nessa hora, os olhos da menina eram duas caçapas)… descobri há uns meses, sabe? (e fungava)… E descobri que o espírito do Elvis é meu obsessor… ´cê sabe o que é obsessão?”

Quando a menina sabia, ele emendava de primeira. Quando não sabia, inventava um troço qualquer, bem coerente e prosseguia: “Pois é… sei lá por que ele foi escolher logo a mim… Vai ver que é porque tenho todos os seus discos, fitas de vídeo, DVD… Sei lá. E lá no centro, por isso fui até lá, pra eles me darem um passe, (por dentro, o Dedeco ria de comprimir o fígado e o baço), eles me disseram que eu só conseguiria exorcizá-lo, levar luz até ele, cantando suas canções durante o show de meus amigos, incorporado, sabe?”

E quase sempre a moça sabia do que ele falava. Hoje, quando a Universal do Reino de Deus promove sessões de desobsessão ao vivo, pela TV, todo mundo sabe o que é isso.

Daí ele pedia mais chopes, mais moelinha, fazia uns carinhos no braço da menina e esperava o vocalista chamar, “Agora, com vocês… Dedeco!”.

E dava-se o espetáculo.

Mal acabava o número, ainda durante os gritos de bis das viúvas do Dedeco, que são muitas, ele chegava “pro pessoal” e fazia um convitinho pra sua alcova, na Conde de Bonfim, pra ouvir um CD, assistir um DVD etc etc etc

Na noite seguinte, à mesa, o mesmo intróito entre nós: “Porra, Edu, papei um pessoal lá em casa ontem que vô te contar!”.

Até.

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>O DEDECO EM PETRÓPOLIS

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O Dedeco bateu o telefone pra mim na tarde de ontem. Como o BINA o denunciou, já atendi com as gentilezas de praxe, impublicáveis. E ele foi uma sonora gargalhada depois do “Faaaaaaaaala, Edu…”, que está para o André Menezes como o “bem, amigos” para o Galvão Bueno e o “alô, você!” pro Fernando Vanucci.

Disse-me, tossindo, que o André tosse com um vigor tísico, que estava em Petrópolis, de novo. E que gostaria de contar-me um “interessante detalhe”.

André Menezes está trabalhando, há uma semana, na Casa do Barão de Mauá, na cidade serrana, hoje sede do Executivo Municipal.

E como eu conheço a Casa do Barão de Mauá, a da foto, quando despedi-me do Dedeco meu imaginário foi uma delícia visual impressionante. Eu via o Dedeco, de terno, gravata, casacão, espetando a verde grama dos jardins com a vigorosa ponta de seu gigantesco guarda-chuva, passeando próximo à grade que separa a portentosa construção em estilo neoclássico, acenando pras moças na calçada. Via o Dedeco, tragando seu cigarrinho que lhe amarela o dedo indicador, com uma das mãos postadas no gradil da sacada, tramando planos sórdidos que seguramente estão por trás de sua recente elegância.

Tentei arrancar, durante o breve telefonema, alguma pista que me indicasse seu objetivo, já que apenas um incauto crê que, de um dia para o outro, o André aposentou a surrada calça jeans e a camisa preta de malha, e a fétida sandália de dedo, por um terno, uma gravata, um casacão, um guarda-chuva e sapatos italianos apenas em busca de pose e de porte.

E esbarrei, também na tarde de ontem, com um Celsinho sorridente no Buraco do Lume, no Centro da cidade. Contou-me que acompanha, atento, as mal traçadas linhas do Buteco. E disse-me que é, o Buteco, o principal responsável pela guinada na vida do André. Tendo estudado com o André na faculdade, Celsinho contou-me que o André levava vida pacata quando mais moço. Gordo, já careca, “não pegava ninguém”, foi essa sua expressão. Vinte quilos mais magro, dono de farta cabeleira (jamais se esqueçam que o Dedeco, quando emagreceu, deixou de ser gordo e deixou também de ser careca, provando que sua calvície era apenas o apêndice de sua obesidade), Dedeco hoje é “um pegador”, a expressão é dele de novo. E segundo o Celsinho, o novo guarda-roupas do Dedeco indica que ele tem, como recente alvo, moças de um extrato social ligeiramente mais elevado. E contou-me interessante episódio.

Ano passado, a Duda resolveu fazer um churrasquinho em sua casa, em Teresópolis. Preciso lhes explicar o que significa um “churrasquinho em Teresópolis”, na casa da Duda.

As pessoas são convidadas, por email. Duda fecha sua lista de convidados e anuncia que fará umas comprinhas, que serão devidamente rateadas por todos.

E no dia do churrasquinho, quando todos os convidados saltitavam nos jardins da casa, uma Duda eriçada sai de dentro de casa com uma resma nas mãos e sai distribuindo aos convidados a cópia da nota das “comprinhas”, que inclui mantimentos capazes de manter uma família por 30 dias. Acuados, os convidados vão depositando, um a um, o dinheiro e os cheques na cestinha de palha que pende do braço da Duda. Neste dia, contou-me o Celsinho, Dedeco fumava seu cigarrinho apoiado numa estátua ao lado da piscina de água natural. E percebeu uma moça desolada com o achaque. Aproximou-se. E apresentou-se. Era, ficou sabendo nos primeiros cinco minutos de conversa, uma amiga de infância da Duda, moradora de Petrópolis, de uma das mais abastadas famílias da serra fluminense, parente em linha reta do Barão de Mauá.

Solteira, feia como o cão, Valéria encantou-se com a gentileza do Dedeco, que recolheu seu cheque da cestinha de palha que pendia do bracinho da Duda, pagando, o Dedeco, as despesas dos dois. E Valéria foi um “oh” e um “ah” de fazer sorrir a estátua na qual André ainda se apoiava.

Valéria, que mora na propriedade que faz fronteira com os jardins do Palácio em Petrópolis – a Casa do Barão de Mauá, seu trisavô – tem tido surtos de umidade ao ver o André com aquela pose de fundador do Banco do Brasil, girando sua pemba – o guarda-chuva – no gramado da mansão.

Um golpe neoclássico, como se vê.

Voltando, o Dedeco, o inquirirei de forma torpe no Estephanio´s, com o auxílio – que peço daqui, de público – do Flavinho e de sua pistola, a fim de novidades.

Até.

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>O GUARDA-ROUPAS DO DEDECO

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Meu bom Flavinho, o Xerife, alcunha registrada pelo meu irmão Szegeri, um apelidadeiro de mão-cheia (foi quem criou o Sorriso-Maracanã pra Dani, o Sorriso Via-Láctea pra Lelê, entre outros tantos), quando comentou sobre a indumentária do Dedeco, no texto de sexta-feira passada, tascou-lhe a pecha: “espírito sem luz”. E eu, um curioso pós-graduado, convoquei o Flavinho pra uma cerveja em Santa Teresa, na própria sexta-feira. Antes mesmo de sentar-me, o bom Xerife já me aguardava, eu já implorava com devoção, “conte-me tudo, conte-me tudo, por que espírito sem luz?”. E o Flavinho riu. Apenas riu. Com as mãos, fez o gesto para que eu me sentasse. Pediu duas cervejas Erdinger que vieram à mesa em copos colossais. Ergueu um brinde e somente depois do primeiro gole, que deu-lhe bigodões brancos de espuma sob o nariz, disse-me: “O Dedeco, Edu, o embusteiro do André Menezes, está, nessa nova fase que inclui ternos e viagens a Petrópolis, tramando alguma coisa. Vá por mim. Uma meia-dúzia de cervejas me fará compreender sua trama. Tenha calma.”.

E chegaram a Betinha, a Dani, a Guerreira, a Cacau, a Ângela e a Fumaça.

Antes de prosseguir preciso lhes falar da Cacau.

É a moça mais lavada que conheço e preciso explicar.

Se me pedirem uma definição da Cacau eu digo sem pestanejar, “uma mulher limpa, lavada, enxaguada, alva, cheirosa”, e ninguém compreenderá nada, suponho, mas é o que veio à minha mente quando a vi entrar no bar. Ela tem, não sei se me entendem, o aspecto do asseio mais possível, a aura do shampoo mais caro, o frescor de tonéis de Listerine, capaz de fazer um cego gritar “que moça limpa!”. E isso ficou ainda mais evidente diante do quadro sujo que o Flavinho pintava sobre o André. Mas vamos em frente.

Quando a Guerreira notou que falávamos sobre o André, ela disse, num suspiro (também com bigodões de espessa espuma): “Vocês tinham que ter visto o André no Belmonte na terça-feira, no aniversário da Deyse… de terno, gravata, um guarda-chuva imenso (não estava chovendo na terça-feira), lindo de morrer…”, e isso bastou pra que o Flavinho dissesse, “viu?”.

Ora, o Dedeco apareceu na quinta-feira, no Estephanio´s, exatamente conforme a descrição da Guerreira. A diferença é que na quinta-feira chovia, o que dava ao guarda-chuva um papel compreensível naquele cenário fashion do embusteiro.

E o Flavinho, investigando… “Guerreira… ele disse por que estava de terno?”, e ela, com os bigodões ainda mais definidos, fazendo bolhinhas quando respirava, “Disse que estava vindo de uma reunião em Petrópolis.”. Exatamente como na quinta-feira.

O Flavinho já era, àquela altura, um excitado diante do evidente êxito de sua linha de investigação.

Pediu uma porção de bolinhos de carne e com os cotovelos cravados na mesa esticou o pescoço pondo a boca em meus ouvidos, espetadíssimos em sua direção: “Porra, Edu… Petrópolis, terno, gravata, guarda-chuva, tem merda nisso. O André sempre foi um relaxado.”.

Flavinho fez sinal com a cabeça e convocou-me pra calçada. Tomou o celular do bolso e discou pra alguém (notem que o verbo discar aplicado ao celular me transforma quase que numa múmia). Eu só o ouvia, obviamente: “Alô? Barroca? Fala, meu nêgo. Não diga a ninguém que esteja a seu lado que sou eu… (…) Você sabe do André? (…) (nesse momento o Flavinho relinchava de rir) Ele explicou-se? (…) Depois falamos. Beijo. Não diga que era eu.”.

Levantei o Flávio do chão. Meu bom Xerife estava de joelhos dando soquinhos da calçada, quase sem conseguir respirar de tanto que ria. Eu: “O que foi?”.

“Edu… o André Menezes, nesse momento, está bebendo cerveja com o Barroca no Triângulo das Sardinhas. De terno, gravata e de guarda-chuva (não estava chovendo de novo, o que dava um tom senil àquela figura torpe). E disse que estava chegando de Petrópolis.”. E não conseguia parar de rir, o Flávio.

Encasquetei-me com aquilo. Terça, quinta e sexta-feira, e o Dedeco aparece em três lugares diferentes, encontrando pessoas diferentes, com a mesma roupa e com a mesma cidade no bolso, Petrópolis. “Vamos à mesa, vamos à mesa”, disse-me o Flavinho recuperado dos guinchos, mais ainda arroxeado pela iminente falta de ar.

“Edu, tem mulher na parada. Não é possível. O André não dá ponto sem nó.”, disse o Flavinho com a boca tomada por um bolinho inteiro.

Toca o celular da Guerreira. Um olhar meu de esguelha e eu vi “Dedeco” piscando no azul-neon do aparelho. “Não diga que está conosco, Guerreira. Diga que está no supermercado, fale no viva-voz.”.

“Alô?”

“Oi, amoreco”

“Fala, Dedeco…”

“Onde você está?”

“Na Sendas, no Largo do Machado, e você?”

“Na rodoviária, acabei de chegar de Petrópolis… vamos beber um chope?”

“Hoje não dá, tô morta…”

“Pena. Queria eu mesmo matá-la…” (e riu, o deselegante Dedeco)

“Beijo, Dedeco. Falamos amanhã.”

E o Flávio urrava de rir com as mãos postas diante da boca, contendo o riso e o arremesso de restos de bolinho de carne. Contou sobre o telefonema com o Barroca. E a mesa, inteira, foi uma espécie de tabuleiro de “Detetive”, vejam aí minha antigüidade estampada de novo.

Toca o meu celular. É o Dedeco. Não tenho viva-voz, mas descrevi o diálogo…

“Fala, Dedeco!”

“Faaaaaaaaaaaaaala, Edu… onde é que tu tá?”

“No Rio-Brasília, com a Dani… e você?”

“Acabei de chegar de Petrópolis de helicóptero, tô na Lagoa, no heliponto… posso ir praí?” (e eu ouvi um grito do Dedeco)

“Não, querido, já estamos indo pra casa, falamos amanhã. Que grito foi esse?.”

“Espetei-me com a ponta do meu guarda-chuva e rasguei a lapela de meu paletó. Beijo.”

E os uivos foram ainda mais intensos quando terminei.

O quê, meu Deus, estará tramando esse ser das trevas?

Até.

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>CHEGA O FRIO, E COM ELE, O DEDECO

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Vejam vocês que, aqui no Rio, basta a temperatura romper, pra baixo, a barreira dos 20 graus, e as ruas são uma festa de casacas, ponchos, gorros, luvas, mantas, cachecóis, coletes e sobretudos. Foi assim ontem. Fui ao Estephanio´s, por volta das 20h, encontrar o Fefê. E lá estava o meu irmão, sentado numa das mesas da varanda, com um agasalho, capuz, calças de veludo e botas. Pedimos vinho tinto. E com as mãos em torno da caneca de louça branca sorvíamos a veludosa bebida lembrando da qualidade dos vinhos da Duda, que está em Paraty, na FLIP, que a Duda é, por mais que seu comportamento contradiga isso de forma contundente, uma intelectual cool (eu disse isso porque, segundo a Duda, quem vai à Bienal do Livro, no RioCentro, é um bobo atrás de novidades editoriais, mas quem vai à Paraty, aí sim, é um intelectual na íntegra).

Mas prosseguindo. Sorvíamos o vinho quando estacou-se diante de nós o Dedeco.

Fomos um susto em uníssono.

De terno chumbo (da Dartigny), gravata vinho (da Hermès), colete marrom (da Pierre Cardin), sapatos pretos (italianos) e com um guarda-chuva de causar inveja ao Pinguim, inimigo do Batman, enorme (“para que eu não o perca“, disse ele), Dedeco abriu os braços e, como que justificando a indumentária (eis que veste, diuturnamente, a mesma calça jeans, a mesma camiseta de malha preta e a mesma sandália de dedo), falou, “Estou chegando de Petrópolis“.

Quando o Dedeco disse “estou chegando de Petrópolis” eu golfei o vinho, que bailava em meu palato, sobre o Fefê. Imaginei nosso bom Dedeco de pantufas deslizando pelos salões portentosos do Museu Imperial, encantando as turistas que o apontavam, não como um careca (lembrem-se que o Dedeco, depois que emagreceu mais de 20 quilos, deixou de ser o gordo e também o careca), mas como o fenômeno que abala as estruturas por onde passa.

E sentou-se à mesa conosco o pomposo Dedeco. Os garçons, o Léo e o Erasmo, boquiabertos, elogiavam a elegância do nosso André Menezes. O Bruno, cozinheiro do Estephanio´s, ou Bruna, como queiram, desmaiou diante de seu porte. As vizinhas desciam, sem pretexto, para uma voltinha no quarteirão, e daquela massa de cachecóis, luvinhas, toucas, gorros, brotavam “ohs” e “ahs” denotando paixão.

Perguntou-me sobre a Fumaça, o bom Dedeco, um atencioso olímpico. Quando lhe disse “está na África”, Dedeco derramou uma lágrima não sem antes dizer, “tadinha, o sorvete na África é uma merda”. Perguntou-me sobre a Duda, e quando lhe disse “está em Paraty, na FLIP”, do outro olho brotou outra gota de sal acompanhada de “como lê, como lê, como lê, essa menina!”.

E ficamos ali, bebendo vinho, comendo pão, numa espécie de Santa Ceia pagã.

Falei em Santa Ceia e, não sei por quê, lembrei-me da Itália. E lembrei-me que recebi, há pouco, email da Cecilia que fecha o email com “un grosso beijo”. Comentei com o Dedeco sobre a expressão “grosso beijo” e o Dedeco apenas riu, cuspindo o vinho sobre o Fefê, de novo, puto a essa altura, com aquela festa de saliva e tanino sobre seu casaco novo.

“Tá rindo de quê, criatura?”, perguntei.

“Nada”, disse o Dedeco, um cínico.

Tive a certeza, naquele momento, de que foi o Zé Colméia quem deu a meia pra Cecilia. O grosso beijo, sei não, foi o Dedeco. Pela cara do pomposo André Menezes, posso apostar.

Até.

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>FALTOU MOSTRAR MICHELA E CECILIA

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Na foto, à esquerda, a Michela, que foi a Roma, partindo de Bolonha, para rever-nos, a mim e à Dani, já que nos conhecemos em Pouso da Cajaíba, e para comemorar o aniversário da Cecilia. À direita, ela, Cecilia, nossa doce anfitriã em Roma. Ambas amicíssimas do Mauro (vão notando o quão forte é o Mauro na Bota). A foto foi tirada na nossa última noite em solo europeu, durante a festa de aniversário da Cecilia. Falei em aniversário e é preciso mandar, daqui, beijos pra Roberta Valente, o pandeiro mais portentoso de São Paulo, que faz anos hoje, a quem conhecemos, também, em Pouso da Cajaíba.

Como se vê, ambas têm, nas mãos, salada de frutas. E quando as duas pousaram nos jardins da casa com a salada de frutas, um Zé Colméia já embriagado gritou, “ôba!!!, pêra, uva ou maçã?”, e atracou-se com as duas, soltando-as somente após intervenções da Ciccita, a cadelinha da Cecilia.

Depois de escrever sobre a viagem, depois de postar, aqui, algumas fotos, ficou faltando mostrar, justamente, Michela e Cecilia, a quem ergo o copo, daqui do Buteco.

E não é possível citar a Cecilia e o Zé Colméia sem mencionar um episódio que tornou-se lenda, repetido exaustivas vezes pelo Mauro, para seus amigos italianos ouvirem, num sotaque de deixar o Silvio Berlusconi no chinelo.

Estava a Cecilia no Brasil, com o Mauro. E estávamos, eu, Dani, Fefê e Zé Colméia no Estephanio´s. E chegeram ao Estephanio´s o Mauro e a Cecilia. O Zé estava, vamos dizer, solteiro como um padre capuchinho e bêbado como um frade belga. E o Zé cantou árias quando a Cecilia saltou do carro. Batia no peito e berrava “ôôô… cuore ingrato…” pra delírio da patuléia naquela esquina.

Eu chamo o Zé num canto e digo a ele: “Zé, em Roma, onde a Cecilia mora, há um hábito estranhíssimo, mas real. A forma mais pungente de declarar o amor e o ardente desejo por uma noite de volúpia é a seguinte: você se aproxima da mulher, tira um dos sapatos e entrega a ela um de seus pés de meia.”.

O Mauro é testemunha, assim como a Dani e o Fefê.

O Zé se aproxima, trôpego, e tira o sapato diante da Cecilia, que sorri, não entendendo nada (não entendendo nada aparentemente, o Zé tomou aquele sorriso como uma súbita aprovação).

Joga-lhe a meia no colo e uma sorridente Cecilia, coitada, guarda o pedaço de pano cinza dentro de sua bolsa.

Foi preciso que o Mauro convencesse o Zé de aquilo tudo era brincadeira minha, e um revoltoso Zé gritava “O Edu não mente, o Edu não mente!”, até que Cecilia entrou no carro sem que o Zé visse e o Mauro partisse cantando pneu na Rua dos Artistas.

Depois do parabéns e do bolo, em Roma, o Zé pegou de um embrulhinho e o entregou a Cecilia. Era, creiam em mim, o outro pé daquele par de meia. “Una confirmazzione”, disse o Zé chorando.

Até.

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>EU AVISEI…

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Em fevereiro deste ano, aqui, eu alertei sobre os crimes que vêm vitimando a cidade de Volta Redonda e sua população. Agora, a denúncia virou livro (“A Usina da Injustiça – como um só homem está detruindo uma cidade inteira”, Geração Editorial, do jornalista Ricardo Tiezzi). E imperdível, pelo jeito. Na época, pra variar, fui taxado de exagerado. Como se vê, de novo, a História me absolve.

Até.

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>SAUDADES DO MARCO AURÉLIO

>(pra Mariana Blanc)


Faz anos hoje (e já lhes pedi que não me corrijam o tempo do verbo nessas ocasiões) meu amigo, meu irmão, Marco Aurélio Braga Nery, que chamava-me “meu irmão Braga”, eis que tenho o Braga antes do Goldenberg. Na foto, ao meu lado, no Bar do Alemão, em São Paulo, em 1996, em instantâneo de autoria da minha irmãzinha Mariana Blanc, o Marco, o último gentleman, como bem o definiu o Aldir. Estávamos em SP por conta da gravação do “Jô Onze e Meia”, quando o gordo ainda estava no SBT, para lançar o CD “50 Anos”, do Aldir, um dos frutos do meteórico selo ALMA (“AL” de Aldir, “MA” de Marco Aurélio), que ainda nos deu de presente o primeiro CD do Walter Alfaiate e o da Clarisse Grova.

Tenho saudades olímpicas do Marco, e dedico o texto de hoje à Mariana por que sei que ela divide comigo essas torrenciais saudades, que materializamos num abraço afogado em lágrimas quando o Aldir, durante o lançamento do songbook do João Bosco, no Teatro Rival, antes de cantar com o parceiro “O Bêbado e a Equilibrista” dedicou o samba a ele.

Meu parceiro de Maracanã, rubro-negro na íntegra, meu irmão de confissões mútuas, tenho muitas saudades dele. E ele, a quem amei e a quem ainda amo, sobrevive em mim, graças a elas, as torrenciais saudades, que hoje doem ainda mais.

Falei em saudade e preciso, a fim de manter viva a chama do humor, contar-lhes divertida passagem do papai, que é, como diriam as personagens rodriguenas, uma bola! Vejam, vejam!

Papai passou grande parte de sua infância em Paquetá, com seus pais e seu irmão. Meus avós estão onde hoje está o Marco, e seu irmão, há semanas, bateu o telefone pro papai, que tem pouco mais de seis décadas nas costas, a fim de convidá-lo para um passeio à Paquetá para matar saudades, rever cenários, exorcizar fantasminhas da memória.

O passeio seria ontem mas acabou não acontecendo porque papai foi acometido por violenta indisposição emocional. Mas vejam onde reside a graça da história. Anteontem, véspera da excursão dos irmãos, bate-lhe o telefone, novamente seu irmão. E saquem as propostas cheias de uma excitação juvenil (e seu irmão é um pouquinho mais velho):

“E aí, Isaac, você vai de boné?”

“E aí, mano, vamos os dois de tênis?”

“Isaac, você vai levar seus botões de galalite? Será que ainda existe aquela mesa de botão na casa da Zazá? Vou levar o meu escrete!!!!!”

E essas perguntas fizeram papai guinchar em direção ao passado, dentro de um ciclone de emoções incontroláveis, que acabaram por derrubá-lo antes mesmo de pegarem a barca. Falei em barca e fecho a homenagem à Mariana propondo uma voltinha com ela, de barca, em direção ao Marco, pro beijo de aniversário. Sem boné.

Até.

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>PRA BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA: BOSTA

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Acabo de chegar do trabalho e encontro, em minha caixa postal, um email enviado por um sujeito cujo nome evito repetir sob pena de vomitar, contendo, apenas, a imagem acima.

O subject do email: “kit-desgraça”.

Desgraça, quero rebater daqui, é o que vive uma mulher que, supostamente apaixonada, casa-se com um desgraçado que está em busca, apenas, do dinheiro do pai da noiva. E como eu não conheço a pobre moça, e como eu não conheço o pai da moça (hoje sogro do remetente do infeliz email), e como eu sequer o cumprimento, e como, obviamente eu não fui convidado pro espetáculo circense do casamento, creiam em mim que o que digo me foi dito por um suposto amigo seu (vejam aí como está bem, o escroque, em matéria de amigos).

Não dou a esse pulha a liberdade mínima que se deve ter para o envio de um email.

Não dou a esse energúmeno o direito de fazer qualquer piada que ofenda, ainda que minimamente, minhas paixões, e refiro-me ao Flamengo, que, se não atravessa boa fase, é muito superior às baixezas arquitetadas por esse estúpido.

Quanto ao Rubinho, não me atinge, eis que odeio a Fórmula Um (o odeio mais, é verdade, mas também odeio o referido esporte).

O PT, que também não atravessa boa fase, tem, entre seus pares, gente honrada. Mas tem, também, gente da pior qualidade como temos visto. Mas, ainda assim, de qualidade muito superior a que ostenta esse biltre rasteiro.

Até.

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