>VIDAL, UM BOM

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Eis que estamos na sexta-feira e quero fechar o que chamei de “Semana Vidal” falando, obviamente, desse meu irmão, chamado de “A Lenda” pelo Szegeri – que continua nos devendo desvendar a origem do epíteto – apesar de ter interrompido, ontem, o ritmo, graças a interferências do Zé Sérgio, o que não fuma mais.

E quero lhes fazer pequenas confissões a fim de que fique claro, para todos, quem é, como age, como pensa, como é, no fundo, um bom, esse Vidal.

O conheci, já lhes disse, há pouco mais de 20 anos. E o Vidal era, já naquele tempo, um irresistível, e como disse isso quero lhes contar mais sobre meu convívio com alguns tipos considerados irrestíveis pelas moças, para que eu possa tecer brevíssimas considerações sobre como isso foi fundamental para que eu me tornasse um craque (já posso deixar a modéstia de lado) no ato da sedução pelo verbo.

O Vidal era, no Palas, onde estudávamos, uma unanimidade. As moças, em plena flor da adolescência, eram “ohs”, “ahs”, suspiros e surtos de umidade quando o Vidal passava. Eu, que sempre fui um feio conformado, a tudo assistia aturdido. O Vidal não dizia um “bom dia”, um “olá”, um “oba”, nada. Mudo, ele era capaz de conquistar a Tijuca inteira. E a Tijuca, quero repetir o que já disse aqui, eis que testemunhei o depoimento do Lan, autor da observação, tem as pernas, e as coxas, e a elegância do andar mais impressionantes do país.

Éramos, em poucos meses de convívio, irmãos. E irmãos siameses. E saíamos juntos e eu testemunhei conquistas vidalescas impressionantes. Ele olhava para uma moça, acompanhada ou não, vejam vocês os dois pires verdes que o malandro tem, e seus bolsos eram uma festa de bilhetes, telefones, torpedos, convites avassaladores. E isso, justamente isso, essa facilidade absurda na conquista, me fez apurar o dom da palavra, da conversa envolvente, da sedução verborrágica, minha única possibilidade de êxito com as mulheres, ainda mais diante dele, que me atropelava nesse quesito. Foi ele, seguramente foi ele, quem me fez desenvolver essa, digamos, técnica, que me rendeu, é verdade, boas histórias pessoais.

Fui humilhado algumas vezes, é verdade também, mas fazia suas vontades em nome da amizade que nos unia e nos une até hoje, e para todo o sempre, eis uma de minhas certezas inapeláveis. Vou lhes contar um caso. Eu disse “um caso” mas foram vários.

Diversas vezes, o bom Vidal chamava-me para sair – ele já dirigia, eu não – e dizia, sem cerimônia alguma, “Vamos sair hoje… preciso de um feio do meu lado para que eu me destaque absolutamente, vamos?”, e eu ia, e testemunhava o Vidal, como um cossaco, derrubando exércitos de mulheres. Falei em exército de mulheres e um episódio me vem à cabeça.

Quando cursava odontologia, na UERJ, o bom Vidal, em determinada altura do curso, foi fazer residência na pacata cidade de Itaocara, no norte fluminense. Eu disse pacata mas deveria dizer pacatíssima. Itaocara é um nada. Mas eu estive lá, algumas vezes, apenas para que bebêssemos juntos nos finais de semana, e num desses finais de semana eu testemunhei um troço impressionante.

O Vidal estava, como direi para ser delicado?, fazendo um tremendo bem à mulher de diversos vereadores, à mulher do Prefeito, do pipoqueiro, do lanterninha do único cinema da cidade, e eu me recordo bem desse dia… Estava eu bebendo com ele numa birosca diante do chafariz da única praça da cidade, num domingo, véspera de sua partida de volta ao Rio, depois de seis meses de residência. E aproximou-se um homem, e o Vidal teve tempo de me dizer, baixinho, “É o Prefeito.”.

E o Prefeito sentou-se e chorou de esguichos, mais vigorosos do que o do chafariz diante de nós. Vidal, como um bom, deu um tapinha no ombro do sujeito, que era do PMDB, pediu um vinho quinado pro garçom, e disse, “O que é que há Pref?”, e vejam que o Vidal chamava a maior autoridade da cidade de “Pref”, numa intimidade aguda. E disse o Prefeito, soluçando, “Fique. Fique. A Prefeitura lhe contrata. Fique. Meu casamento não se sustenta sem você.”.

Aquilo foi, pra mim, uma delícia visual e auditiva. O Prefeito, cornudaço, chorando diante do meu amigo, prometendo emprego, casa, gasolina paga, para salvar seu casamento. Tivesse eu, antes do Szegeri, pensando no apelido, e ali teria nascido o nome “A Lenda”. Eu sei que vocês dirão, “Mais uma mentira do Edu”, mas o próprio Vidal já atestou que sou preciso do princípio ao fim.

Ocorre que isso foi no passado. Vidal hoje, casadíssimo, é um pacato. Eu diria que um “São Francisco”, tão quieto que é, tão bom, tão disponível pra atender as agruras dos amigos, incapaz de uma rudeza ou de um humor torto.

Lembro que dia desses, quando o encontrei, saquei da bolsa o livro “Meu Querido Canalha”, de Carlos Heitor Cony, Ruy Castro, Aldir Blanc, Geraldo Carneiro e Marcelo Madureira. Ali eu fui um sujeito emocionado agradecendo as lições que recebi de meu irmão. E ele, meu irmão, abraçou-me, chorou um bocadinho, e disse-me ao pé do ouvido, “obrigado, meu pupilo.”.

Vejam isso. “Meu pupilo”.

Para minha honra e glória.

Até.

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