>VIDAL, UM GENTIL

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Conforme o prometido, eis que além de preciso até o fim eu sou um cumpridor ferrenho das palavras que empenho, volto hoje ao Vidal. Mas antes quero lhes contar delicioso episódio a fim de lhes demonstrar, mais uma vez, minha precisão tão pouco reconhecida pela assistência que me lê.

Segunda-feira, papai e mamãe receberam, em sua casa, os pais do Vidal, a Lenda. E um orgulhoso papai saca do bolso, no meio da noite, a crônica “Vidal, a Lenda” para mostrá-la a Valmir e Heloísa. Primeiro o Valmir lê. Ri contido, que o Valmir é um lord que não gargalha como hienas como o Dedeco, por exemplo, e estende o texto pra Heloísa. Ela comenta: “Vidal nunca falou assim comigo”. Referia-se, ela, ao trecho no qual eu conto que, durante a Copa do Mundo de 1994, quando assistíamos aos jogos na salinha de TV da cobertura onde o Vidal morava, mal ela punha um pezinho na escada, como que iniciando a escalada rumo à salinha, e um Vidal com uma ferocidade leonina, urrava “sai! desce!”. E o Valmir de voleio respondeu, “O Edu foi preciso do início ao fim”. Vejam que aos poucos eu vou me redimindo e ganhando credibilidade. Eu falei que lhes contaria, antes, esse delicioso episódio, mas agora quero contar-lhes um ainda mais delicioso. Vamos a ele.

Corria o ano de 1999. Eu estava, digamos, num ano meio barro, meio tijolo, e vacas tentavam, a todo custo, destruir meu pasto (eu sei que já recorri diversas vezes a essa imagem, mas ela é de uma precisão cirúrgica). Eis que, numa tarde de setembro, no bairro de Vila Isabel, surge a Dani diante de mim. Pausa rápida para uma explicação rápida, que o tema exige digressões que não cabem aqui. A Dani estava em Londres há anos, morando lá, e vamos dizer que vê-la, naquele momento, era tudo o que eu mais queria.

Estávamos no Clube Maxwell, no aniversário do Alfredinho, do Bip-Bip, dali partimos, depois de umas investidas bem sucedidas da minha parte (hoje posso me conceder essa ausência absoluta de modéstia) pra quadra do Salgueiro e de lá pra Praia de Ipanema, onde vimos o sol nascer dançando no calçadão “Canção da Manhã Feliz” na voz da Maria Bethania. Um curta-metragem perfeito e preciso. Eu juro que dançamos nus. A Dani nega. Detalhes. Em frente.

Em questão de semanas, eu estava de quatro. Eu diria, sem medo de errar, que há muitos anos eu estava de quatro farejando o chão a sua procura, mas isso são detalhes, de novo. E eis que eu achei que era chegada a hora de apresentar a Dani ao Vidal. É importante a expressão “era chegada a hora”, porque quando eu disse à Dani, “Vou ligar pro Vidal, quero que ele te conheça agora” a Dani soltou um “Mas agora?” capaz de me fazer frear o carro de susto. Era uma da manhã de uma quinta-feira. Voltávamos, os dois, de um jantar no Capela. E eu disse, passando a primeira e tomando a direção de sua casa, “Agora”.

Bati o telefone pro Vidal, que atendeu-me bocejando. Eu lhe contei de minhas intenções. Nesse momento, penso no Szegeri, um capaz de gritar lá de São Paulo, “O Edu está sendo preciso!”, já que ele é alvo de ligações minhas nas mais estapafúrdias horas, e pelos motivos mais banais.

Ele disse que estava dormindo, que tinha paciente marcado às 7h da manhã mas, claro, me receberia. O que esperar de um irmão?

Eis a cena.

Chegamos à sua casa. Um Vidal de pijama nos recebeu na porta. Cerveja na mão, mesinha posta na varanda, amendoim, castanhas, uma Dani constrangidíssima e eu, numa alegria absurda diante daquele irmão gentil, fazendo sinais de aprovação com os dedos por trás de uma Dani atônita. Ali ficamos por umas três horas. E nasceu ali uma gratidão eterna, que devolvi na mesma moeda.

Anos depois, o Vidal num ano meio barro, meio tijolo, enfrentava, vejam vocês, caras, bocas e veneno diante de uma decisão que tomou, e não vou dar detalhes, que isso em nada importa ao deslinde da questão.

Eu passei uns bons meses fazendo discursos por onde passava, sempre de pé, e a Dani a tudo assistia novamente constrangida e atônita, defendendo sua decisão, sua opção e fazendo, de viva-voz, os mesmos sinais de aprovação que ele fez com os dedos naquela noite.

Isso é fruto e prova, como diz o samba, da importância da velha amizade.

Até.

14 Comentários

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14 Respostas para “>VIDAL, UM GENTIL

  1. >O Vidal é realmente um grande cara, é uma pessoa “zen” em quase todos os momentos, só faz pose de mau tocando um rock’n’roll com a guitarra. Tá sempre sorrindo e é um excelente parceiro de copo.Que bom que as vacas não destruíram o seu pasto, e nem o do Vidal.

  2. >Meu caro Xerife, permita-me algumas correções mínimas porém fundamentais.01) o Vidal não é só um “grande cara”. Ele é “a Lenda”. Caso meu irmão Szegeri tenha alguma disposição hoje, por favor, faça breve comentário sobre a origem do epíteto.02) Ele é mesmo um excelente parceiro de copo. Sem nunca – isso é importante – ter golfado em público. Mesmo depois de quantidades industriais de birita.03) quanto às vacas, apenas eu as enfrentei. O problema do Vidalzinho foram as caras, as bocas e o veneno que lançavam contra ele em decorrência de uma decisão tomada por ele, que mostra-se, hoje, acertada.É isso.

  3. >Talvez o motivo pelo qual o Vidal nunca tenha golfado em público seja porque nenhum amigo quis tornar público tal momento…Szegery, conte-nos a origem do apelido do Vidal! Esta “semana de Vidal”, com tantos episódios divertidos, aguçou a curiosidade dos leitores!

  4. >”O Edu foi preciso do início ao fim” vai acabar virando um mantra! rs Pergunto eu, em minha santa ignorância, o prq do Edu, perder tempo tentando fazer com que acreditem nele? Será q seus velhos e os não tão velhos amigos sabem que vc, de vez em quando, omite, aumenta, diminui ou quem sabe, mente um pouquinho… rsMuitos ou poucos, quem vai saber, leitores estão curiosos em saber quem será a vítima da próxima semana! rsNo mais, vai Szegery, mata a curiosidade dos leitores! rs

  5. >Papai, como esse “rs” no final de cada frase sua é característica de seus emails, veja que é fácil identificar-se nos comentários. Marque “outros” e ponha seu nome, Isaac, cravado no espaço próprio para isso. O anonimato é sempre lamentável. E não perpetuem o erro gramatical. Szegeri é com I, de Isaac.

  6. >Li hoje um texto do Aldir Blanc sobre os safadinhos que estão se passando por pais da pátria. E nesse texto é citado um Goldenberg. Como não deve ter mais de uma família Goldenberg na Rua dos Artistas, deduzi que seja seu pai, pois o nome é Isaac. Acertei, Edu, “o grande mentiroso”?

  7. >Bem lembrado. Não sabemos ainda a origem do apelido A LENDA. Szegeri (com i) ou o próprio Vidal podem ajudar? 🙂 Abraço, Edu.

  8. >Em tempo: o texto do Aldir a que me refiro está no endereço http://www.coleguinhas.jor.br/pensata/2005/07/rua-dos-artistas-varejeiras-na-sopa.html. Deve ter um caminho mais rápido, mas foi lá que eu o encontrei.

  9. >Evidente que o senhor Isaac foi citado como fonte do festejado poeta e cronista Blanc, não por ser safadinho.

  10. >Edu, você conhece a letra do hino de Sergipe? Nem eu, que nasci lá por acaso, a conhecia. Peguei ontem num site qualquer e a transcreverei em seguida, não sei por que motivo. “Alegrai-vos, Sergipanos,Eis surge a mais bela auroraDo áureo jucundo diaQue a Sergipe honra e decora.O dia brilhanteQue vimos raiar,Com cânticos docesVamos festejar.A bem de seus filhos todosquis o brasil se lembrar,de seu imenso terrenoem províncias separar.O dia brilhante …isto se fez, mas contudotão Cômodo não ficou,como por más consequênciasdepois se verificou.O dia brilhante …Cansado da dependênciacom a província maior,Sergipe ardente procuraum bem mais consolador.O dia brilhante …alça a voz que o trono sobeque ao soberano excitou,e, curvo o trono a seus votos,independente ficou.O dia brilhante …Eis, patrícios sergipanos,nossa dita singular,Com doces, alegres cantosnós devemos festejar.O dia brilhante …mandemos, porém, ao longeessa espécie de Rancor,que ainda hoje alguem conservaaos da província maior.O dia brilhante …a união mais constantenós deverá congraçar,sustentando a liberdadede que queremos gozar.O dia brilhante …Se vier danosa intriganossos lares habitar,desfeitos os nossos gostostudo em flor há de murchar….”

  11. >Cara, é muito engraçado a porra do hino! Nas entrelinhas, reclama que a Bahia pegou a parte maior das terras e sobrou pouquinho pra Sergipe. É o único hino ranzinza do mundo. Da minha terra, hahaha!!!

  12. >”Cansado da dependência/ com a província maior/ Sergipe ardente procura/ um bem mais consolador” QUAQUAQUAQUAQUA!!! O autor do hino era um bom sacana. Isso tem duplo sentido, pombas! QUAQUAQUA!!!

  13. >Por partes: sim, o Goldenberg citado é o patriarca Isaac (ele me enviou também a messma mensagem, por isto posso atestar tal assertiva), excelso líder do Clã dos Goldenberg. E hoje o Aldir dá os créditos completos, inclusive para quem recolheu os dados, no JB.Zé Sérgio, volte a fumar. Também não entendi pênises dessa história do Sergipe.

  14. >Olha, estava até disposto, a bem de me redimir das ausências recentes, revelar o âmago do mistério. Mas, ante a insistência do “anônimo”, mesmo ante os indícios de tratar-se do indefectível e muitas vezes admirável Isaac Goldenberg, vou trancar a história no cofrinho por mais umas sete luas.

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