LANÇADO, DE NOVO, AO PASSADO

Percebam que ontem lhes contei sobre um email de mamãe. Ralhando comigo e passando-me um pito olímpico, mamãe tecia críticas vorazes ao tom do Buteco. Só que isso foi no sábado, e o final de semana serviu para que, refletindo sobre o pito, eu prosseguisse na mesma trilha no dia de ontem. E mamãe, que é de uma elegância e de um grã-finismo comoventes, rendeu-se, provavelmente depois de também refletir, novamente por email. Disse-me apenas, numa mensagem bem curta, “Meu querido, adorei o pito. Você tem memória de elefante. Mil beijos.”.

E vejam vocês que o “adorei o pito, você tem memória de elefante” dito pela mamãe foi responsável por uma guinchada minha em direção ao Passado. Mais uma, que eu vou ao Passado como quem vai à padaria.

Quando ela associou “pito” à “memória de elefante” quis dizer que, além de boa memória, sou velho, antigo, ultrapassado, desbotado e bolorento, já que “pito” é um verbete em extinção. E isso, ao contrário da previsível depressão, me traz, sempre, um orgulho intenso e uma vontade incontrolável de dividir minhas memórias. Vamos a elas.

A foto que ilustra minha confissão de hoje tem apenas uma serventia: impedir o carimbo de “mentiroso” em minha testa, que isso é, como tenho dito, uma rotina. Dissesse eu, sem a prova material estampada no alto da coluna, que cansei de ir assistir com papai a partidas de autobol, onde carros corriam atrás de uma bola gigantesca, de 1,20m e 12kg, em busca do gol, e o côro seria ouvido por toda a parte: “Lá vem o Edu, delirante!”, “Olha o mentiroso outra vez…”, “Como delira, o Edu!” e outras frases do mesmo naipe.

Mas já estou de calças curtas, sandálias Ortopé e camisa de malha listrada, ao lado do papai, no campo do América, na Rua Campo Salles, na Tijuca, assistindo Vasco x Fluminense, Vasco x Flamengo, e o campo é uma lama só, e a assistência delira diante daquela impossibilidade real diante de nós. Sejam francos, vocês todos. Ninguém, rigorosamente ninguém acreditaria em mim, se eu não encontrasse, no Google, a fotografia, e dissesse assim, blasé, que cansei de assistir partidas de autobol. Mas é como o Vidal decretou no sábado, no Aconchego Carioca: eu sou preciso do início ao fim. Quero fazer uma retificação. Talvez o Zé Sérgio acreditasse em mim, e gritasse, lá de Niterói, “é verdade, é verdade, é verdade, eu também fui a partidas de autobol”, que o Zé Sérgio é uma espécie de Borba Gato, antiqüíssimo como eu e caçador de tesouros que a patuléia desconhece. Aliás, lembrei-me que um dia perguntei ao Dedeco, “você algum dia chegou a ir assistir a uma partida de autobol?”, e o André Menezes está rindo até hoje, acusando-me de mentiroso, como se não fosse ele, o André, o mentiroso-mor.

E como estou no Passado, arremessado pelo email da mamãe, preciso lhes dizer que depois das partidas de autobol papai me levava, e ao Fefê, pra comer cachorro-quente da Geneal na Rua Barão de Itapagipe, também na Tijuca, e até hoje está fixada em mim a imagem daqueles azulejos azuis claros, do chão ao teto, as mesinhas de madeira e seus banquinhos giratórios e os sanduíches da Geneal, com ketchup e Coca-Cola. Era uma espécie de ritual, cumprido à risca, domingo após domingo.

Morávamos na Rua São Francisco Xavier 90, apartamento 203, no Edifício Jureva, em frente à Escola Orsina da Fonseca, prédio colado à vila onde morava minha bisavó, na São Francisco Xavier 84, casa 4, a tal do banheiro de azulejos amarelos onde pequei pela primeira vez. Estou dizendo isso e internamente me pergunto, “que fixação é essa pela cor dos azulejos?”.

Daí estou pensando nas cores, e lembro que papai tinha, nessa época, uma Variant verde, verde-escuro, como são verdes os olhos do Vidal.

Só falei isso – verde – porque amanhã volto a ele, a Lenda, para mais histórias impressionantes da vida desse meu irmão. E o Buteco vai assim ganhando um novo ritmo. Já tivemos a “Semana Batista”, a “Semana Dedeco” (essa, recordista de audiência), a “Semana Szegeri”, e vamos fechando, na sexta-feira, a “Semana Vidal”.

Até.

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6 Comentários

Arquivado em confissões

6 Respostas para “LANÇADO, DE NOVO, AO PASSADO

  1. >Lembro sim, mas nunca fui a um autobol. Dessa vez, confio integralmente em suas palavras. Por que diacho vc mentiria sobre autobol? O diacho foi em sua homenagem.

  2. >Eu nunca tinha ouvido falar em autobol! Que “esporte” mais esdrúxulo! Inacreditável… Perdão, não quis dizer isso. Eu acredito sim! Mas que é inverossímil, isso é!

  3. >Zé Sérgio, você não imagina minha alegria ao ler “dessa vez, confio em você”. Conclui, s.m.j., que no mais das vezes você estampa em minha testa a pecha de mentiroso. Lamentável, meu caro. Quero repetir: sou sempre preciso, do início ao fim.Betinha, você nunca ouviu falar em autobol porque o autobol morreu antes de você nascer, bem provavelmente. Daí a verdade que eu também já havia lançado: sou velho, antigo, e cada vez mais velho, e cada vez mais antigo. Você disse isso, com um pouco mais de gentileza.

  4. >Ah, Zé, esqueci de lhe dizer. Minha bisavó também dizia, “mas que diacho!”, quando, por exemplo, começava a chover ou quando algo a contrariava. Bela lembrança, meu caro, o que atesta o que disse: és um Borba Gato!

  5. >Tá enganado, Edu. Não duvido tanto assim. Só acho que vc mente um pouquinho,o básico do fingidor :>)

  6. >É, fixação em azulejos deve ter alguma explicação psicológica meio básica. De qualquer forma, mais uma vez, vejo as memórias infantis que todos temos, mas que você descreve tão bem.Tá quase lá, já é um estilo de escrever que – somado ao universo de “personagens eduardianos” – daria para vôos mais altos.

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