VIDAL, A LENDA

Quando abri meus emails no sábado pela manhã, dei de cara com o dedo indicador de mamãe furando o monitor cravando a unha no meu nariz. Ralhando comigo de forma intensa (percebam como inicio a semana velho, antigo, ultrapassado, já que desde que minha bisavó partiu jamais ouvi ser conjugado o verbo ralhar), passando-me um pito olímpico (e pito? e pito? Quem ainda usa isso além de mim?), mamãe esculhambava o Buteco reduzindo-o ao que ela chamou de uma espécie de Caras, uma revista de fofoca baixa, desinteressante, e meu sábado foi intrigante por causa disso. Ocorre que o sábado passou, veio o domingo, hoje é segunda-feira e temo decepcionar minha doce mãe. Rejeito a pecha com que ela me carimbou. Não faço fofoca aqui, ao contrário do que ela diz. Conto-lhes histórias, todas, rigorosamente todas verdadeiras, e vou lhes provar.

No sábado, como lhes contei na sexta-feira, comemoramos os 3 anos da Confraria S.E.M.P.R.E.. E lá estavam, no Aconchego Carioca, eu e Dani, Fefê e Brinco, Flavinho e Betinha, Dalton e Guerreira, Zé Colméia, Vidal e Gláucia. E a chegada do Vidal foi saudada, por todos, efusivamente. E os comentários sobre uma de suas ex-namoradas, protagonista da crônica de sexta-feira, foram inevitáveis. Vejam vocês que todos se valiam da presença do Vidal para tirar a limpo o que contei. “Fala, Vidal, tudo mentira do Edu, né?”, “Conta aí o que é verdade ali…”, e um Vidal íntegro, sincero, de caráter verde como o verde de suas duas poças-esmeralda, socando a mesa, após um pigarro reflexivo e um vigoroso gole de cerveja disse, “O Edu foi preciso do início ao fim”.

Percebam que isso é uma rotina. Triste rotina, quero completar.

Não é só mamãe quem me acusa de fofoqueiro e intrigueiro. Uns dizem que minto, outros que invento demais, outros ainda que faço uso de poderosas doses de ácido antes de escrever, e quando o Vidal, a Lenda, disse “O Edu foi preciso do início ao fim” eu me senti absolvido diante daquele júri que me apontava os dedos diminuindo minhas verdades e reduzindo-as a puro delírio. E já que estou falando do Vidal, e já que falei do Vidal na sexta-feira, é do Vidal que falarei hoje. A ilustração acima é uma forma de homenageá-lo. O Vidal, a vida do Vidal (amei o som disso, a vida do Vidal), os lances protagonizados ou apenas testemunhados pelo Vidal, dariam uma enciclopédia, um compêndio fundamental para que pudéssemos conhecer a magnitude dessa alma alva (amei o som de alma alva também).

Mas como o Vidal é meu irmão, e como somos confidentes mútuos, vocês hão de compreender que os mais quentes detalhes de sua vida permanecerão guardados e em segredo. Vamos, pois, às futilidades passíveis de publicidade capazes de revelar a dimensão dele, o que justificaria a enciclopédia imaginária. Não se esqueçam, por exemplo, do que lhes contei sobre seu método anestésico, outra de minhas verdades inapeláveis. O Vidal dispensa a anestesia em razão de que apenas seus olhos, diante das clientes embevecidas, são capazes de permitir o tratamento do canal, a cirurgia de uma gengiva, a extração de um siso, sem um “ai”, sem uma dor, sem um gemido que não o de prazer. Vamos em frente.

Vamos em frente mas vamos encerrar já, já. Quero fechar com um lance genial do Vidal.

Corria o ano de 1994. Copa do Mundo. E assistíamos os jogos na casa do Vidal, quando o Vidal ainda era solteiro. Eu, ele, Lélio, Fefê, Mauro e Valmir, o pai da Lenda. Notem bem que eu não falei da mãe do Vidal. E não falei por uma simples razão. Por razões superticiosas, o Vidal não permitia à mãe o ingresso na salinha de TV no segundo andar da cobertura. Ela punha um pezinho na escada, como que iniciando a escalada rumo à salinha, e um Vidal com uma ferocidade leonina, urrava “sai! desce!” e assim foi durante toda a Copa.

Mas então. Jogavam Brasil e Holanda. E um 2 a 2 sufocante tornava o ar pesado naquela cobertura. Até que o Branco, lembrem-se, sofreu uma falta na entrada da área. Enquanto o próprio Branco ajeitava a bola para efetuar a cobrança, um Vidal vazado de fé, imita o gesto do bom Branco e posiciona-se diante de uma porta de vidro bisotado, caríssimo, e anuncia, “vou cobrar junto com ele”, e o Valmir disse um “ai meu Deus” baixinho que somente eu ouvi.

A bola era imaginária. Não havia nada entre o Vidal e a porta.

E o Branco cobra, e o Romário se afasta dando passagem à bola que foi morrer dentro do gol, e um Vidal em transe destrói, num chute similar, a porta de vidro bisotado e a atravessa para comemorar ao ar-livre, com cacos por todo o corpo, o gol que deu a vitória à Seleção Brasileira.

Quando eu digo “com cacos por todo o corpo” é preciso que vocês me compreendam bem e visualizem a cena. O Vidal não tinha pele à mostra. O Vidal era todo vidro, seus cabelos brilhavam com aquele pó moído, e o Vidal abraçou cada um dos presentes, e ninguém, nenhum de nós, se cortou. Ninguém.

Terminado o jogo, sobe à sala a mãe do Vidal para certificar-se da tragédia sonora, pra ela era apenas sonora, não vira nada, só ouvira o som do vidro rachado, destruído, como se centenas de cristaleiras estivessem vindo abaixo. E mal pôs os pés na salinha, cortou-se. Cortou os pés e depois as mãos, quando começou a catar o que sobrara da porta.

Nós ali, havíamos testemunhado um milagre, não havia dúvida. Não havia um arranhão, uma gota de sangue que não o dela, tadinha, excluída que fora da aura santa e superticiosa do Vidal. Ali, ele já era a Lenda. Foi preciso que o Szegeri, anos depois, tendo conhecido o Vidal, tornasse público o epíteto eterno, pra todo o sempre, amém.

Até.

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1 comentário

Arquivado em gente

Uma resposta para “VIDAL, A LENDA

  1. >Fico com pena dessa mãe! Primeiro é expulsa da sala e depois ainda tem que catar cacos de vidros! Os cortes devem ter sido mais na alma do que na pele, afinal, era um vidro bisotado caríssimo e não um espelho, este, na certa, o superticioso Vidal não quebraria! rs

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