>O BATISTA NO SIRI

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Domingo às oito e meia da manhã acordei com o telefone gritando. Atendi num sem-pulo e era o Batista. Como bocejei antes mesmo do alô, o Batista desculpou-se como pôde e convocou-me, sem direito à réplica, pra um almoço no Siri, na Rua dos Artistas. Preciso confessar que não tinha a menor disposição de aceitar o convite, mas um assunto é um assunto, e então eu combinei ao meio-dia com o meu doce amigo.

Apontei na esquina meio-dia em ponto, e só vi as mãos do Batista, que o Batista, lembrem-se, saúda um amigo que chega como um náufrago em mar bravio, já sentando diante de meia dúzia de bolachas da Brahma. Olheiras profundas, cor de chumbo, as mãos trêmulas e aquele balbuciar lento e pesaroso, “sente-se, Edu…”. Sentei-me, e sentei-me excitadíssimo. “O que foi dessa vez?”, disse enquanto estalava os dedos chamando o garçom à mesa para pedir dois chopes e uma porção de camarão ao alho e óleo.

“Separei-me”, disse o Batista para então cair num chôro convulsivo. O chôro convulsivo do Batista é um espetáculo de sons e gestos. Guincha altíssimo, assôa o nariz sem cerimônia, a mão que recebe o muco nasal esfrega os olhos, despenteia os cabelos, e ali, enojado, esperei o amigo acalmar-se não sem antes sugerir uma ida ao banheiro para lavar as mãos. E obedeceu-me, o Batista, e eu já era, àquela altura, um curioso olímpico pelo novelo da história. Volta o Batista à mesa e senta-se à minha frente dizendo apenas, “vaca”.

“Vaca, quem?”, eu disse com os olhos cravados na espuma do meu chope. “A Dirce, Edu…”. Contou-me o desolado Batista que seu segundo casamento terminara depois de um telefonema da Dirce para sua mulher. Um telefonema daqueles. Com requintes de detalhes, todos confirmados pelo próprio Batista durante seu último jantar em casa. Confessou-me não ter o menor talento para mentiras, ardis, nada disso. Daí ouviu as queixas da mulher, comeu seu bife de fígado com purê de batatas de olhos baixos, assentindo com a cabeça as verdades que a resignada repetia, e foi ao quarto apenas para buscar as duas malas já feitas.

Está morando numa pensãozinha na Rua do Matoso.

Ocorre que a “vaca” não lhe sai da cabeça. Ocorre que a “vaca” tem feito visitas diárias ao fedido quarto onde está morando e mais, contou-me com um sorriso, o primeiro desde minha chegada, a “vaca” tem sido uma ninfomaníaca de lhe tirar o fôlego. Tem feito o Batista de joguete, a expressão é dele mesmo. E isso tem feito meu amigo feliz.

O consultório vai bem, não tem do que se queixar. O que lhe tem tirado o sono é justamente a fúria uterina da Dirce, sempre com uma nova idéia, quase-revolucionária, que inclui algemas, chicotes, botas com esporas no cano alto, mordaças, velas e cêra quente, um rol de deixar qualquer um abilolado.

Mas o pior, soube em seguida, estava mesmo por vir.

Batista me convocara com um único objetivo, além da novidade da separação.

Dirce estava a exigir um terceiro disposto a filmá-los.

“E pensei em você, Edu… Não confio em mais ninguém pra isso… Você topa?”.

Quando ele disse “você topa?” eu bati com as duas mãos na mesa derubando os dois chopes num “mas é claro!” que o deixou felicíssimo. E eu disse “quando? quando? quando vai ser isso?”.

Quando ele respondeu “ainda não sei, mas em breve”, meus olhos brilharam e ele notou. “Amanhã, você pode?”. E eu gritei de novo “mas é claro!” e pedimos a conta.

Batista ficou de me ligar hoje à tarde para um chope no Roquinha, o segundo lar do meu doce amigo, no final do dia.

Amanhã, obviamente, contarei tudo, com detalhes.

Até.

1 comentário

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Uma resposta para “>O BATISTA NO SIRI

  1. >Boa Sorte Edu!! Se você quiser eu tenho uma máquina digital…Abração

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