>A RESSACA DO BATISTA

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Bem, o Batista dormiu em minha casa, como lhes contei ontem. O que eu não sei se lhes contei ainda é que o Batista está casado. E pela segunda vez. E não temo enganar-me se lhes disser, de público, que está casado pela segunda vez apenas por enquanto, já que antevejo o terceiro casamento do Batista não muito longe. Do jeito que está sua cabeça, do jeito que está seu casamento, o bolo vai desandar.

Para ser mais honesto, o Batista não dormiu na minha casa. O Batista continuou a beber em minha companhia. Com uma diferença fundamental: para cada dose que eu servia a mim, o Batista bebia três. E ouvi, madrugada adentro, um Batista já quase-rouco lendo e relendo o bilhete de Dirce, cada hora com uma entonação. Ele foi de uma ênfase de Brizola, de uma fúria de Carlos Lacerda, de um lamento viniciano, e chorava dentro do uísque que deu-me dó.

E eu falei em dó e preciso lhes contar que dentro do motel o Batista foi um pungente e pesaroso homem. Contou-me que a entrada de Dirce no quarto, quando ele esbofeteava uma Linda que pedia mais, foi digna de filme do Tarantino. Uma patada na porta e um grito de “parem!” ouvido por todos os fregueses do Palácio do Rei fez de Dirce o centro das atenções naquele quarto (que fedia, contou-me o Batista). Ela sentou-se à beira da cama e com as mãos em seu tornozelo (Batista estava nu, de meias Lupo pretas, apenas), chorando como criança perdida na praia, disse: “Vocês dois me fizeram sofrer. Você, Linda, sua vaca (e os olhos de Dirce perfuravam as duas contas de esmeralda da irmã, mas com as mãos ainda no tornozelo de Batista), jamais teve o cuidado de ser discreta. Gritava, berrava, urrava, gemia como cadela de rua no cio a provocar os vira-latas de todo um bairro, enquanto restava a mim a masturbação doentia que quase me aleijou. Você, gostoso (e os olhinhos tomaram a direção do ventre do Batista), você suava que chegava a umedecer as paredes mofadas do meu quarto. Eu lhe ouvia a respiração ofegante, ouvia os sons dos tapas que morriam na face limpa dessa vagabunda, e chamava o cabo de minha escova de cabelos de Batista, chamava o vidro de Neutrox de Batista, mordia meus dedos, a quem eu chamava de Batista, e somente aquela noite, na garagem do seu prédio, pude perceber o quanto essa desqualificada era feliz, sem nunca ter se dado conta disso. Falava-me mal de você. Criticava seu corpo, tinha nojo de seu bafo, tinha medo, veja como ela é estúpida, Batista!, de seus ataques com essas mãos imensas (e cravou as unhas sobre a mão de Batista), confessou-me jamais ter gozado durante aqueles anos todos.”

Disse isso e abriu a bolsa de onde tirou algemas, cordas, uma toalha de rosto preta, e um Batista assustado deixou-se algemar, amarrado à cama e com a toalha enterrada na boca.

Uma Dirce inteira, “Palácio do Rei é o caralho, eu sou a rainha dessa porra”, esbofeteou a irmã, misturando suas lágrimas às lágrimas dela, ensopando o lençol bege, encardido e visivelmente mal lavado, e arrancou o vestido ordinário de Linda, e passou a mordê-la, com ódio, a amassar-lhe os seios de mármore (Linda é branca como uma nórdica), a beliscar os bicos rosados e ásperos com requinte das marmorras da ditadura, e chamava a irmã de Batista, e obrigava a irmã a chamá-la de Batista, numa satisfação que somente ela entendia, só parando quando percebeu que Linda estava vermelha, com a pele salpicada de placas que denunciavam seu inédito orgasmo, ofegante, cansada, com um sorriso típico na boca. E cuspiu-lhe nos olhos verdes ainda marejados, e quando Linda, com as costinhas da mão, limpou o escarro santo, riu lembrando de seu gesto idêntico na garagem.

E virou-se pra ele, Batista, e a essa altura eu tremia sentado na poltrona diante daquele Batista narrador, e cuspiu-lhe também na cara. E o beijou na boca, misturando língua, saliva, o algodão da toalha e sangue (Dirce sempre teve sangramentos tremendos, tipo hemoptise nas gengivas).

Pediu desculpas à irmã, que apenas disse, “claro, mana, eu te entendo… e obrigada por hoje..

Levantou-se, pôs um bilhete no bolso de sua camisa pendurada num desses cabides de laca, e disse, “Leia depois, meu amor. Vou procurá-lo dentro de uma semana, quando tudo estará mais calmo para você.”.

Tomaram banhos juntas, Linda e Dirce.

Batista, nu, de meias e amarrado, só ouvia as gargalhadas e sentia um intenso cheiro de maconha vindo do banheiro.

E bebemos até umas nove da manhã, quando meu telefone gritou.

Era a mulher de Batista.

“Sim, querida, ele está aqui. Passamos a noite jogando pôquer. Quer falar com ele?”.

Batista, abanando as mãos (é um italiano, o Batista, um italiano usando as mãos), pediu-me silêncio, disse algo que eu não compreendi e despediu-se de mim com olheiras de carcereiro. Disse apenas “vou pro inferno, Edu, ela está a me esperar e eu não consigo parar de pensar nas meninas”.

Vejam isso. “As meninas”.

Um romântico, o Batista.

Até.

1 comentário

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Uma resposta para “>A RESSACA DO BATISTA

  1. >Eis que, inesperadamente, reacende a saga do Batista! E, pelo visto, teremos mais…

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