AS DORES DA BETINHA, OS MÉTODOS DO FLAVINHO

Pode parecer intencional, mas não é.

Contei-lhes da hérnia do Szegeri, do maxilar da Banana e eis que hoje quero lhes dizer sobre as dores intestinais da Betinha, amiga querida, musa do meu Otto na íntegra, companheira fiel do Flavinho.

A doce Betinha, dia desses, acordou com uma víbora dentro de si, como diria Nelson Rodrigues.

Pequena pausa.

A Betinha é parente direta do Nelson, vejam que bonito. Nas dores e nas queimações reside o parentesco hoje, vivíssimo, como uma marca a atestar a autenticidade de sua linhagem.

Buscopan, leitinho morno, massagens de leve em busca do alívio, e nada. Um Edifício Andorinha ardia e fazia sofrer a Betinha.

Uns dois ou três telefonemas apontaram o nome do Dr. Penteado – eu juro que é verdade, juro que não é plágio, juro que não é o Pentado, tremendo gozador, personagem do Aldir em “Porta de Tinturaria” – como o bamba da área. E marcou-se a consulta.

Flavinho, egresso do Cachambi, macho cascudo, decidiu acompanhar Betinha à consulta. “Mulher minha” – disse-me ele – “não se consulta com homem nenhum sem minha presença”.

Resignada, sem ter conseguido desviar Flavinho de sua intenção, Betinha fez-se presente no consultório na hora marcada.

O consultório era um troço. Recepção com carpete alto, sofás em couro, paredes com xadrez no estilo britânico, luzes indiretas dando um tom intimista ao local de trabalho do Dr. Penteado, e sentaram-se os dois, lado a lado, aguardando o chamado.

Flavinho, expert na área de investigações, havia posto, autorizado, um microfone sensibilíssimo dentro da bolsa Louis Vuitton de Betinha para acompanhar a consulta da recepção, já que fizera parte do trato a companhia ao consultório sem a necessidade de entrarem juntos na sala do médico.

Flavinho gastara, no cartão de crédito, quase R$2.000,00 num aparelho de escuta ambiental, ativada por voz, em formato de cartão de visita, que viabiliza largo espectro de operações, que permite ser portado para o interior de qualquer ambiente dentro de pequena bolsa porta-cartões e colocada, naturalmente, em cima de uma mesa, por exemplo, podendo ainda ser facilmente ocultada em estruturas, objetos, mobiliário, tendo em vista seu formato “flat”, que, evidentemente, facilita sua ocultação. A escuta é ativada por voz, ou seja, transmite apenas em função da presença de sinal sonoro dentro da faixa de freqüência da voz humana no ambiente onde se encontrar, o que eleva a autonomia do aparelho, em freqüência UHF, com três opções de canais, com alimentação à bateria de lítio 3 volts, com autonomia de 40 horas de operação ativada por voz, medindo 5,5 x 8,6 x 0,7cm e pesando 28 gramas.

E veio o Dr. Penteado à porta chamá-la.

Flavinho ergueu-se, estendeu a mão, disse um boa tarde rude e sentou-se ajeitando o fone de ouvido.

Achara o Dr. Penteado um pulha, assim, de cara. Uns 50 anos, alto, em forma, grisalho, gumex à sorrelfa, barba feitíssima, um garda-pó alvíssimo, e ele antevia merdas.

Percebeu quando o cartão de visita fora pousado na mesa. Mas uma interferência não prevista no manual de instruções do equipamento impedia o acompanhamento do diálogo. E o Flavinho suava, enterrava mais forte o fone em seu pavilhão auricular, e nada.

Deu-se que num determinado momento ele ouviu apenas um “querida, então dispa-se.”.

Soube depois, quando já era tarde, que o Penteado dissera, “querida, então… dispepsia.”.

Flavinho sacou da pistola, deu cinco ou seis tiros pro alto, destruiu uma gravura inglesa retratando uma cena de caça de perdizes, invadiu o consultório, tomou Betinha pelas mãos e acertou um direto no pincinê do gastro.

Está marcada para quinta-feira um endoscopia. E mudou-se o trato. Flavinho ajudará, inclusive, a segurar o gastrofibroscópio o tempo inteiro.

Até.

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1 comentário

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Uma resposta para “AS DORES DA BETINHA, OS MÉTODOS DO FLAVINHO

  1. >Dei grandes gargalhadas, com certeza foi o seu dia de experimentar um ácido, ou algo semelhante. Beijos, padrinho.

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