>O PESO DE UMA TRADIÇÃO

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Um dia decidi que ofereceria uma feijoada no dia do meu aniversário. E preparei, de fato, sozinho, feijoada para 150 pessoas no Estephanio´s, que se regalaram com muita carne, couve, arroz, laranjas, farofa. Isso foi em 2000. Acho que em 2001, 2002, 2003 e 2004, ofereci lentilha aos meus convidados. Isso, foi lentilha. Uma lentilha diferente, que eu criei. Preparada com o mesmo carinho que dispenso a tudo o que faço diante do fogão, chamo o prato de “lentilha carneada”, já que fica o caldo bastante engrossado, com muita lingüiça, paio, carne-seca, costelinha e mais que tais. Ontem, meu aniversário, pela primeira vez não consegui me dar o dia de trabalho de presente. Atarefadíssimo, ocupei-me a ponto de não poder pensar em oferecer sequer Sopa Instantânea Knorr aos que iriam me abraçar. Tratei de marcar um descompromissado chope no Estephanio´s e pronto. Pensei que seria bom ver os queridos, abraçá-los, erguer o copo ao humor, brindar à saúde etc etc etc

Pronto, que nada.

O que vi foi um quadro de horror, chocante como “O Grito” de Edward Munch.

As pessoas vinham chegando e eu percebia os olhos vasculhando o ambiente. Os abraços que eu recebi foram velozes, os mais afoitos farejavam ruidosamente em busca do odor da lentilha e das folhas de louro. Recebi uns poucos presentes, mas nada superou um que chegou com um embrulho e estendeu-me o que parecia ser um livro. Antes, disse, “cadê aquela lentilha clássica?”. Comecei a explicar e o sujeito puxou para si o pacote e disse “vim só pra te dar um beijo” e partiu.

Tudo era pânico. Os que tinham olhos de fome pediram caldinhos de feijão e eu os via comendo tristíssimos, muxoxando, reclamando, ameaçando não pagar. O que prendia as pessoas ali era o jogo Brasil x Guatemala. Eu era o canalha, o pulha que quebrava uma tradição de muitos anos.

A pilha de presentes, antes uma pequena torre, era, em determinado momento um morrote, as pessoas estavam recolhendo o que haviam me dado, não pela data, não pela data!, mas como paga pela lentilha que não aconteceu.

Noutra hora, juntei-me a uns cinco ou seis, ergui o copo e disse sozinho “saúde!”, e o côro foi implacável, “à lentilha!”.

Estava ficando exasperado e a Dani chegou a sugerir que eu fosse no Extra comprar “Sopa de Ervilha Meu Instante Maggi”, o que considerei impraticável.

Os que se despediam – houve os que saíram à francesa – diziam entre tapinhas “ano que vem avise que não vai ter nada”, “tchau, vou pra casa jantar”, “que merda, heim!?”, e tive a certeza, quando fiquei sozinho com a Dani numa mesa, do peso que tem uma tradição descumprida.

Até.

3 Comentários

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3 Respostas para “>O PESO DE UMA TRADIÇÃO

  1. >Como eu coloquei num comentário anterior. Sem a lentilha não tem graça. Tradição é tradição…E cá entre nós, vai dizer que você também não sentiu falta? Aquela cena das pessoas esperando ansiosas o grito: “A lentilha está servida”. E elas correndo para o caldeirão, disputando a concha quase que a tapa, catando os pedaços de paio. Comendo rápido, já de olho no segundo caldeirão, que não sei o porquê, sempre vem melhor que o primeiro. Cada um, com uma educação britânica, repetindo, pelo menos, três vezes.Isso faz parte do seu aniversário, queira você ou não. Abs

  2. >Como falei, evito enterros, não vou pelo morto. Nos aniversários a regra em geral é outra. Mas no seu… Ousado o teste de cortar a lentilha, afinal, a SUA lentilha é muito boa. Acho que os amigos não decepcionaram, não largaram o morto, mesmo sem lentilha.

  3. >Comparar o aniversariante a um morto e a comemoração a um enterro é no mínimo original… :)Betinha

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