EU, NOSTÁLGICO

Ontem, 26 de abril, véspera do meu aniversário, Dona Glória bateu, de Natal, o telefone pra mim, a fim de me desejar os etc de praxe, temendo, disse-me ela, não conseguir falar comigo hoje em razão dos festejos etílicos também de praxe. Falei com ela, com Delson, seu marido, e com Tico, seu filho mais novo (nunca é demais repetir que o Tico é responsável pelas maiores guinchadas no tempo dentro de mim, já que o conheci bebê, engatinhando, e chamá-lo ainda hoje de Tico, um Felipe com quase 2 metros de altura, também deve causar nele as mesmas guinchadas, suponho). Era meio-dia e meia e falamos por pouco mais de 10 minutos. E eis que, bastou desligar, abateu-se sobre mim um terror de Stephen King. Não dá azar – dizem – receber parabéns de véspera? Pois dali em diante fui um soturno, um triste, um abatido, e controlei-me sobremaneira para não discar de volta e gritar, já contrito, “retirem os parabéns!, digam que não me desejam nada hoje, nada!”. Diante da sensação de que eu seria ridículo, desisti.

Desisti mas o abatimento não me largou. Tenho, desde que fiz 5 anos (bem me lembro), choques de nostalgia quando vem chegando o dia do aniversário. E ontem, somado à tsnumani nostálgica, havia também o abatimento semelhante ao que calou mais de 200 mil pessoas no Maracanã em 1950. Eu chegaria ao dia de hoje? Por que, eu me perguntava incessantemente, pela primeira vez na vida eu recebia parabéns de véspera? Um sinal? Um aviso? Mau presságio? Fui ao Google e deparei-me com verdades inapeláveis apontando para a tragédia que representou o telefonema antecipado. Não tive fome – eu esqueci de dizer que estava indo almoçar quando Dona Glória ligou; estava, acabei não almoçando -, não tive sede, dormi mal. Dormi mal, mas dormi. Pouco, mas dormi.

E no sonho, sei que já lhes contei isso milhares de vezes, lá estava eu no banheiro de azulejos amarelos na casa de minha bisavó, na vila da São Francisco Xavier 84, pecando pela primeira vez diante do corpo reluzente da Adele Fátima num minúsculo biquini amarelo sem o sutiã, numa foto da revista “Amiga” (percebam como estou velho, não há nada mais antigo que a revista “Amiga”).

Isso eu não sei se já contei, mas se já contei, conto de novo, que é cabível. Depois de pecar e conhecer a sensação indizível, escondi a revista debaixo das almofadas de um sofazão azul que ficava no quarto dos fundos da casa de minha bisavó. E não há a expressão “ir com sede ao pote”?. Há. Pois eu ia, sempre, à revista, e com a revista ao banheiro, com uma sede de beduíno. E escondia a revista de novo, e isso se repetiu sei lá por quantos anos, e corrói-me por dentro a não-lembrança de quando deixei de cumprir esse ritual absurdo que me transformou, definitivamente, num obsessivo. Nasceu ali, não tenho dúvidas disso, minha obsessão, minha compulsão, o molde do que sou, a forma como ajo, a maneira como persigo meus desejos.

E já que falei em desejos, o que quero, realmente, já que cheguei aqui e aparentemente não teve o efeito temido o telefonema da Dona Glória, é seguir do jeito que eu sigo, com os amigos que eu tenho, com a mulher que eu tenho, com a saúde que eu (ainda) tenho, com os desafetos que tenho (em breve discorro sobre minha tese que defende o quão bom é ter desafetos), a fim de que eu possa, quando chegar-me a hora, ser mágico e enfeitiçado para encontrar, em algum canto, aquela velha revista que há de me perpetuar o gôzo que conheci no banheiro amarelo para todo o sempre.

Até.

3 Comentários

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3 Respostas para “EU, NOSTÁLGICO

  1. >Ops…postei os “Parabéns” no lugar errado…rsSorry…leia no texto abaixo.Bjo

  2. >Mais uma vez, Parabéns pela data. Agora, posso garantir que sem a “tradicionalíssima LENTILHA CARNEADA”, não é a mesma coisa.Era um comentário só. “Cadê a lentilha?” “Ah…sem lentilha não tem graça.”.Fica o apelo: Lentilha nos próximos aniversários.Abs

  3. Pingback: ADELE FÁTIMA | BUTECO DO EDU

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