O RESPEITO QUE O SZEGERI IMPÕE

Eu sou um sujeito sem nenhuma memória no que chamam “memória visual”, muito embora eu discorde no geral, e não saiba que nome dá-se à falta específica da memória que me assola. Explico.

Sou capaz de lembrar das coisas mais absurdas, mais pretéritas, mais passadas de que se tem notícia. Cheiros me evocam ao espírito o banheiro de azulejos amarelos da casa de minha bisavó onde cometi o primeiro pecado mirando, babando, uma foto da Adele Fátima, na vila 84 da Rua São Francisco Xavier. As mãos de meu pai a arrastar-me pelo gigante de concreto, o Estádio Mário Filho, com uma almofada branca da Riotur para maior conforto nas arquibancadas. O sanduíche da Geneal na Rua Barão de Itapagipe. Sou capaz de desenhar com detalhes a planta de uma casa em Santa Teresa onde eu ia quando moleque. Não me parece cabível a pecha de um “desmemoriado visual”.

Mas quando estou a falar de gente, aí é uma tragédia. E vou contar dois casos clássicos para que vocês percebam o poder, a influência, o respeito e, sabe-se lá, o medo que tenho do Szegeri, o meu Otto, como já expliquei.

A Dani trabalha na WiseUp, uma escola de inglês, e lá também trabalha uma moça cujo nome – vão tomando nota, vão tomando nota! – não me lembro. Mas não me lembro mesmo, nem achei honesto telefonar-lhe agora para lhe perguntar isso. Mas bem. Segundo estatísticas da própria Dani eu já encontrei com essa moça (uma professora) umas 40 vezes. Ainda segundo a mulher que me ensinou a sorrir, na primeira vez fomos apresentados – vou chamá-la de Eunalita para que seja mais fácil referir-me a ela (Eunalita era uma secretária do papai, na Petrobras, e dela me lembro de forma visceral) – ela mesmo, Dani, fez as mesuras: “Edu, essa é a Eunalita… Litinha (Dani a chama pelo apelido, que também não me lembro)… esse é o Edu, meu marido”.

Na primeira oportunidade, encontramo-nos, eu e a Eunalita, em outra festa. Ela vem a mim: “Oi, Edu… tudo bem, querido?”. “Que beleza, que beleza!”, gritei, que é o que costumo fazer, sem que nisso haja nenhum sentido, quando não sei com quem estou falando. Meus olhos saltam do globo e vão cutucar a Dani que vem, como uma bombeira do Edifício Andorinha, reconhecendo meu estado: “É a Eunalita, meu amor…, colega lá do trabalho…”, cochicha no meu ouvido.

E assim foi em todas as outras 38 vezes. Eunalita sempre me cumprimenta com carinho, sorri docemente, faz perguntas atenciosas, e Dani, sem jeito, às vezes por trás dela, fazendo mímica labial… “E-u-n-a-l-i-t-a”. Uma tragédia.

Mas vejam o outro caso. Dia desses o Szegeri veio ao Rio para uma apresentação de seu grupo, o Inimigos do Batente, em um bar na Gamboa. Eu fui, é claro. E lá chegando (fomos quase os primeiros, eu e Dani), um sujeito dirige-se a mim, abre os braços enormes, dá-me um abraço de tamanduá e urra boca-a-boca, entupindo-me de perdigotos: “Grande Edu! Grande Edu, eu sabia que iria encontrá-lo aqui!!!!!”. E eu, “que beleza!, que beleza!”.

Meus olhos são os mesmos olhos de terror. Dani vem em meu socorro e diz, “Amoreco, não sei quem é. E não é a Eunalita”.

Vou ao banheiro para lá remoer a memória. Nada. Da porta do banheiro fico fazendo sinais com a mão, acendendo o isqueiro num pisca-pisca feérico até que o Szegeri me veja. Ele vê. E já vem rindo.

“O que foi, meu irmão?”, diz o meu Otto na íntegra. E eu peço que ele saia do banheiro comigo e me diga quem é o sujeito para quem eu apontarei quando chegarmos no salão de volta. Feito. Por trás do cara eu fico apontando e o Szegeri levanta-se já com o riso enscancarado sem conseguir esconder o pito que vai me passar.

“Porra, Edu… é o Augusto… (meu Deus… e se não for Augusto o nome dele mesmo?) chapíssima meu lá de São Paulo… já esteve no Estephanio´s, vocês já beberam juntos várias vezes, ele sempre pergunta de você… nunca mais faça isso… você nem falou com ele?????”.

“Falei. Mal. Mas falei.”, disse constrangidíssimo.

“Porra, que mancada!”.

E foi só.

Mas eis que semana passada fui à São Paulo para assistir ao show dos Inimigos do Batente. De ônibus. E sem a Dani, que iria depois, de avião. O pânico que sempre me assalta quando vou viajar dessa vez não era causado pelo meio de transporte, pela ausência da Dani ou mesmo pela distância do meu carneiro de pelúcia que não estava na bagagem. O pânico era pelo suposto encontro com ele. Ele quem?, eu me perguntava na rodoviária às 6h da manhã.

Antes mesmo de chegar em Itatiaia eu já havia lembrado: o Augusto! Tomei nota no maço de cigarros… A-U-G-U-S-T-O. Eu não faria feio dessa vez. Seria esfuziante, luminoso, profundo, radiante e caloroso com o amigo do Szegeri.

Ao desembarcar fui à cabine de informações: “Boa tarde, a Sra. sabe me dizer onde encontro o Augusto?”. A mocinha nem sequer levantou os olhos da Caras que estava lendo. Atônito, tomei o metrô e pra bilheteira a mesma coisa: “A Sra. sabe em que estação devo descer para encontrar o Augusto?”. Eu estava obcecado em reparar meu erro. Ela me deu o troco e um muxoxo e eu segui em direção ao Ó do Borogodó. Na portaria, um cavalão perguntou meu nome para pôr na comanda e eu disse “Eduardo. E o Augusto, já chegou?”. O cavalão perguntou o nome de quem estava atrás de mim ignorando-me completamente e eu entrei, suadíssimo.

E eis a cena. Postei-me bem ao lado da porta. Antes mesmo do Szegeri chegar, quem entra? Ele. O Augusto. Simpaticíssimo, fez um olhar de surpresa ao me ver ali mas eu não permiti uma palavra, um balbuciar simples de um “olá”, nada. Voei em cima dele, dei-lhe um abraço apertadíssimo e saí rodopiando com ele pelo meio do salão dizendo-lhe “Que bom te encontrar AUGUSTO! (e como eu dizia Augusto mais alto que o resto das frases…), que alegria vê-lo AUGUSTÃO!, que saudade danada AUGUSTAÇO!, puta merda, e quando você aparece lá no Rio, GUGU?, porra, bela noite aquela na Gamboa, heim, GUTO!”, e assim fiquei até o Szegeri chegar (uns 20 minutos depois) e testemunhar minha postura.

Vejam vocês o respeito que impõe o meu Otto particular.

Até.

3 Comentários

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3 Respostas para “O RESPEITO QUE O SZEGERI IMPÕE

  1. >Caro Edu,Tomei conhecimento desse seu texto ontem, dia 21. Hoje fui lê-lo. Uma beleza! Sofro de distração semelhante. Em uma mesmo lugar, sou capaz de cumprimentar a mesma pessoa mais de uma vez como se tivesse acabado de encontrá-la. Já conversei horas com um mesma pessoa sem citar o nome dela porque simplesmente não o lembrava. Em certos lugares, quando chego, já trato de me policiar para não cometer gafes. A primeira medida é de me encostar no primeiro conhecido (de nome e feição) pra perguntar quem é aquele fulano, quando sei que o sujeito vai chegar pra falar comigo. Certa ocasião tive que ir ao banheiro pra fazer um esforço de memória pra lembrar quem estava sentado numa mesa próxima a minha. Não tinha ninguém para me acudir. Estava ficando incomodado de olhar aquele cidadão e não reconhecê-lo. Achei que saindo dali poderia recuperar a memória. Sem muita opção, fui ao banheiro. Fiquei alguns minutos naquele ambiente inadequado pensando. Não adiantou. Resolvi então voltar à mesa. Quando abri a porta, o sujeito que não reconhecia era o primeiro da fila. Fiquei em pânico! O cara me fitou e disse: “pô, esse é o mal da cerveja. Quando dá vontade de ir ao banheiro, não paramos mais”. E foi só! Percebi que o cara não tinha me reconhecido também. Ouvi na porta do banheiro o que ouço há anos de conhecidos e desconhecidos. Fiquei aliviado. Voltei para minha mesa. Pelo menos a gafe era recíproca. Menos pior! Nunca soube quem era o sujeito. No seu caso, a ajuda veio à tempo. Que bom! Que alívio! Nem eu, o temporariamente não identificado na sua história, tinha percebido. Na primeira oportunidade, você cobrou da memória a reparação. Honroso e sutil restabelecimento. Atitude dos inesquecíveis. Abraços, Augusto

  2. >Vejam vocês a qualidade imerecida e única com que Nosso Senhor agraciou-me: a de amealhar craques à minha volta. Quando se juntam, por óbvio, só dá jogão…

  3. Pingback: AINDA O BORGONOVI | BUTECO DO EDU

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