Arquivo do mês: maio 2004

E DANI DISSE: FAÇA-SE O BUTECO

Doces figuras, moro desde meados do ano 2000, pouco depois da tentativa frustrada de algumas vacas que tentaram, sem êxito, destruir meu pasto, com a Dani, a mulher com quem aprendi a sorrir e a quem persegui por longos anos, num mui humilde chatô encravado na Tijuca.

O apartamento tinha dois quartos, banheiro social, cozinha, área de serviço, quarto e banheiro de empregada. Após reforma apocalíptica entre novembro e dezembro do ano passado, passou a ter dois quartos, banheiro social, cozinha zero quilômetro, o quarto de serviço transformado em lavanderia, o banheiro de empregada reformado e a área de serviço transformada em um buteco. Autêntico.

Dani, pretendendo com isso, sabiamente, manter-me mais em casa, deu um banho nas pernósticas e pernósticos que ocupam as “CasaCor” da vida.

Atentem para o cenário.

Um janelão que nos permite ver o céu, vista arejada. Uma Árvore da Felicidade, duas jibóias gigantescas que começam a lamber as paredes verdejando o ambiente, uma mesa original de buteco, pés de ferro, base de madeira e tampo de mármore, cadeiras em volta dela, um quadro de autoria do Mello Menezes desenhado numa toalha do Bar Lagoa, uma bolacha imensa da Original, que nunca falta, um quadro comemorando um dos campeonatos do Flamengo e outro, de autoria do Lan, com o time dos sonhos do rubro-negro.

Uma prateleira que sustenta uma bromélia, outra com cachaças, bolachas de várias marcas de cerveja, um filtro de barro que vovó nos deu, um balde lindo da Bohemia dado pela Guerreira e pela Maria Paula, e por enquanto é só.

Há ainda, em andamento, projetos que porão a imagem de São Judas Tadeu com a bandeira do mais querido no alto de tudo, mais algumas plantas, enfim, detalhes, que as mulheres são especialistas em fomentá-los.

Sem modéstia, que nunca foi o meu forte, não há, entre os 50 bares citados no Guia Rio Botequim 2004, nenhum que chegue perto da força que o buteco daqui de casa imprime aos poucos e seletos freqüentadores.

Já passaram por ele, pela ordem: Fefê, que o inaugurou comigo (e que é, de longe, o mais assíduo), Guerreira, Maria Paula, Betinha, Vidal, Gláucia, Fernando Szegeri e Flavinho. Ontem, por exemplo, Fefê e Flavinho aqui estiveram para deleite de ambos, tenho certeza, pois testemunhei os gemidos de prazer etílico-gastronômico de ambos a noite inteira. Chegaram, os dois juntos, às 21h45min. Saíram às 4h30min. Eis a íntegra da nota fiscal:

01 garrafa inteira de Red Label
½ garrafa de Black Label
02 Originais
01 porção de lombinho canadense com salsinha e limão
02 porções de amendoim
01 Canapé do Léo (Szegeri, exijo seu comentário sobre ele)
01 peça inteira da patinho fatiado no sal grosso e acompanhado de salsinha
01 porção de lingotes de ouro

A escoltar a noite, dois puro habanos trazidos, gentilmente, pelo Fefê.

Flavinho compareceu com a garrafa de Red Label, devidamente morta antes das 2h. Flavinho, diga-se de passagem, agindo assim como um polido e educado londrino, telefonou-me hoje pela manhã para agradecer penhoradamente pelo brilho da noite e pela excelência do buteco.

Estão agendadas, para muito breve, as visitas de Betinha e Fumaça num dia, Dedeco e Marquinho em outro.

O buteco comporta apenas quatro pessoas: eu, Dani e mais dois felizardos.

Mas falei do buteco para contar-lhes agora uma história verídica que entrou para os anais do Estephanio´s (o segundo melhor bar da cidade) ocorrida no domingo passado, 09 de maio, graças a uma tirada rápida e certeira do Fefê, uma sacada de craque.

Mesa de sete: eu, Dani, Fefê, Dalton, Alê, Guerreira e Marco. O propósito do encontro foi continuar comemorando o aniversário do Fefê e o do Marco, namorado italiano da Guerreira que chegara naquela manhã ao Rio de Janeiro para visita de sete dias, ambos de 09 de maio.

Dalton, que já bebia uma cachaça, propôs a todos, devidamente calibrados, um brinde com branquinha.

Marco, curiosíssimo, pergunta do que se trata.

Eu, misturando italiano, português e inglês, expliquei.

Proposta aceita, vieram à mesa quatro doses, pra mim, pro Fefê, pro Dalton e pro Marco.

Era Seleta, de Salinas. Marco virou o copo numa velocidade absurda e desdenhou: “Acqua per bambino…, acqua per bambino…”.

Os seis olhos, meus, do Fefê e do Dalton se cruzaram. Mais quatro doses, dessa vez da Rochinha Ouro 5 Anos, de Barra Mansa. Marco repete o gesto e manda de novo, aquele riso de Monalisa estampado no rosto: “Acqua per bambino… acqua per bambino…”.

Fefê foi ficando puto.

Sugeriu a Fogosa, de Salinas de novo. Forte, encapetada, para tentar tirar a pose do italiano.

As quatro doses à mesa e Marco, sem nenhum pudor, soltou sonora gargalhada para depois dizer: “Acqua per bambino!”.

Enquanto maquinávamos, os três nativos, sobre o próximo rótulo, percebemos Marco mudo e paralisado como uma escultura de Michelangelo.

Cancelamos a operação.

Marco foi perdendo a cor e seu único movimento, a essa altura, era um leve e repetido gesto de roçar a língua no lábio superior.

De repente, num gesto feroz, Marco levanta-se, leva a mão à boca e grita: “Il bagno!, il bagno!”.

Guerreira corre com o cara pro banheiro e de lá saem os dois, dez minutos depois, Marco lívido, pálido.

Sentam-se à mesa e Fefê manda de prima: “Cachaça: 2 reais. Cachaça envelhecida: 4 reais. Italiano tirando onda com a nossa cara vomitando: não tem preço.”.

Até.

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33 ANOS DE VIDA

Doces figuras, meu dia hoje anuncia-se assoberbadíssimo.

Como eu não sou tonto de passar sábado e domingo diante do monitor, já me basta a semana útil, e como no domingo, 09 de maio, Fefê faz aniversário, vai de hoje minha modesta homenagem a ele que é uma das grandes paixões da minha vida.

Tive muita sorte de tê-lo como irmão, tendo chegado dois anos depois de mim, ele que é a obra-prima de Isaac e Mariazinha.

Mais do que meu irmão siamês, encho a boca orgulhoso para dizer que trata-se, de longe, de meu melhor amigo e, ainda, meu Confrade, com quem divido as mesas dos butecos que a S.E.M.P.R.E. (Sociedade Edificante Multicultural dos Prazeres e Rituais Etílicos) ocupa religiosamente uma vez por mês.

A foto que ilustra o texto, de minha autoria, tem a marca do cara: o sorriso mais-que-escancarado que já derrubou, e ainda derruba, um exército de malucas.

Fefê divide comigo, com religiosa freqüência, tudo o que amamos: a devoção à cerveja e à cachaça, o apreço pelos charutos, o vício do cigarro, a paixão pelo futebol, tudo amálgama dos nossos permanentes encontros, quando brindamos, sempre, à vida e à graça de sermos, literal e profundamente, irmãos.

Há as mulheres, também, que sem elas, nos disse o Poeta, a gente não vive. Mulheres que, não custa dizer, não dividimos. Imitando deslavadamente o bom Szegeri, segue “Declaração de Amor para Fefê”:

“Sendo eu Flamengo até a alma,
tendo o sangue negro
a bombear o coração vermelho,
preciso de um cigarro e muito calma
pra escrever, depois de alguns ensaios
diante do espelho,
uma frase capaz de lhe fazer compreender
a dimensão do amor que me une a você,
meu irmão siamês.
E vou escrever uma única vez:
por você sou vascaíno.

Por mais que o tempo passe
insisto em vê-lo como um menino,
mas o menino sou eu
a idolatrar o irmão que é meu maior tesouro,
num movimento e num impasse inexplicável do tempo,
que dobra as datas e me faz ter nascido depois
do seu primeiro chôro.

Entre nós dois,
pactos de sangue,
cumplicidade,
cinzeiros cheios,
muita cerveja,
olhos marejados,
samba, mulheres e futebol.

Torço permanentemente para que a Vida,
a tal senhora por vezes desatenta,
atenda minha reza estúpida
que pede para que eu jamais lhe sinta a falta.

Passarei, como os craques passam,
de passagem,
deixando com você, como homenagem,
meu coração calejado, na colina mais alta,
devidamente marcado
pela Cruz de Malta.”

Até.

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111 ANOS DE VIDA

Levanto, hoje, um brinde à memória da mais doce das criaturas, que completa hoje 111 anos. Mathilde Monteiro de Barros, minha bisavó, minha Bia, como a chamava, mãe de Mathilde, minha avó que recentemente fez 80 anos e avó de Maria, minha mãe amada.

As três, já disse isso por escrito a elas, formam a Fragilíssima Trindade que me sustenta.

Em 17 de dezembro de 1982, tinha eu 13 anos de idade, a Bia dormiu e nunca mais a vi. Mas jamais deixei de senti-la, como vocês poderão atestar lendo o que escrevi para mamãe há alguns anos.

“Rio de Janeiro, 17 de dezembro de 1997.

Mãe:

Eis a letra do “doente”, que com a música fica ainda mais lancinante, falando dos netos, de seu avô, de sua infância em Paquetá:

“Na primeira febre a minha febre e quem é quem pedindo proteção?
Ponho a mão na testa do meu neto e é meu avô que está estendendo a mão.
Nessa comunhão dos três, eu sou avô do meu avô,
ele é o menino ali e ri das confusões que o Grande Amor pode fazer:
é um milagre essa multiplicação de mãos e febres por buscar ternura
e então com medo de morrer a Fragilíssima Trindade jura:
ficaremos sempre assim por perto
e quando meu neto tiver neto
uma febre unindo o que passou dirá pro Tempo: oi, meu avô…
É por aí: um piano em Debussy, o morcego e o sapoti na Praia dos Coqueiros…
o avô sou eu numa bicicleta: de canelas finas, mexe com as meninas…
Explode a trovoada, a chuva canta e a enxurrada leva todos nós,
fracionados sim, mas fusionados rumo ao delta, à queda, ao fim, à foz.
E uma vez que voltaremos
numa febre que menino-avô terei
até o Filósofo sorri: – “É o mesmo rio. Eu me enganei.”

E aí, eu ouvindo isso hoje em casa, recém chegado do trabalho, pus-me a chorar compulsivamente entre delírios e princípio de febre, que quase me enlouqueceram, sozinho que eu estava, num primeiro momento sem qualquer razão aparente.

E alimentando a “doença” que me faz cada vez mais diferente, e que faz com que eu me sinta cada vez mais distante do padrão de normalidade que acredito que assola os que me cercam, ouvi a tal faixa outras tantas vezes.

Até que me veio, nítida, a lembrança da Bia, o cheiro da Bia, o cheiro de talco e de lavanda, de hortelã e de pão-bóia, de paralelepípedo molhado de chuva, o som das tempestades que caíam sobre a telha azul e branca que cobria os carros na vila, a sensação da primeira punheta proibida entre os azulejos amarelos do banheiro daquela casa folheando a revista que trazia Adele Fátima quase nua, a sensação de proteção que a reza que ela fazia me dava, a sensação do tato, minhas mãos em busca do papo molenga que pendia do queixo e dos braços, da pele mais macia, e revivi o sorriso mais bonito que jamais vi, o sorriso daquela mulher que é a mais forte presença da minha infância, que é a fase, estou cada vez mais certo disso, que sedimenta o caráter, que forma o homem, que sustenta o homem, que faz do homem um homem, que apronta o homem, que dá sustento pro resto da vida.

E pensei tanto, e lembrei tanto da Pidoca, tive tanta saudade, e maldisse tanto a estupidez da vida, e reneguei bem mais de quinhentas vezes a existência pela crueza que é a morte, e maldisse os deuses que a levaram há quinze anos, eu tão moleque ainda, e engoli tanta lágrima, e solucei tanto, e minhas mãos tremiam tanto, e minha febre “aquarentou”, e tive tanta raiva pelo fato de não tê-la comigo ainda hoje em carne e osso, e tive tanta dor por não ter tido a chance de apresentá-la a meus amigos, e disse tantas vezes à cachorrinha que ela ia adorar a minha Bia, e apaguei todas as luzes da casa, e sentei-me na cadeira que já foi dela, nu, na posição de feto, que recém-nascido recebeu o colo mais cheiroso que jamais esqueci, que por fim, depois de tantas tentativas vãs, consegui falar com a neta da avó mais doce que já existiu.

Refeita a Trindade, fragilíssima já que sujeita ao sumiço aleatório que nos seqüestra sem aviso e nos leva ao nada que desconhecemos e que tentamos explicar das formas mais delirantes possíveis, fiquei mais calmo diante do milagre da ressurreição que o Amor, imortal posto que é chama, é capaz de tornar concreta.

Fiquei mais calmo porque entendi que nós é que somos capazes de tornar a Trindade eterna.

E acendi as luzes da casa, e acendi os refletores sobre as árvores que me vigiam noite e dia, e preparei um uísque, e acendi um cigarro, e ri quando tive pigarro, busquei à toa pastilhas Garoto que não tenho em casa, fiz carinho no pote de prata que foi dela sobre a mesa de canto da sala, e a senti nos feixes de luz na mata, a senti presente em mim, dentro de mim, e nem tentei ficar buscando explicações pra presenças intangíveis, muito menos quis acreditar em mediunidade, em alma, em espírito presente, já que eram por demais concretas as sensações em mim, em mim, em mim.

Era eu o elemento. Eu não era meio de nada, instrumento de nada, veículo de nada.

Aconteceu mesmo aquilo tudo. Em mim. Dentro de mim.

E disse ao pote, às árvores, à luz, e disse ao espelho que atestava a cor dos meus olhos: “Oi, minha Bia…, tô com saudade.”

O “doente” a que me refiro na carta é Aldir, autor da letra reproduzida, pra música de Cristóvão Bastos e gravada no disco “Novos Traços”, de Clarisse.

Um murro de emoções que me derrubou. Hoje, mais de 21 anos depois de sua partida, mais de 6 anos depois de ter enviado essa carta pra mamãe, reitero cada uma de minhas palavras. Ainda me dói sua saudade e ainda me é lancinantemente comovente encontrar mamãe e vovó juntas.

Até.

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