111 ANOS DE VIDA

Levanto, hoje, um brinde à memória da mais doce das criaturas, que completa hoje 111 anos. Mathilde Monteiro de Barros, minha bisavó, minha Bia, como a chamava, mãe de Mathilde, minha avó que recentemente fez 80 anos e avó de Maria, minha mãe amada.

As três, já disse isso por escrito a elas, formam a Fragilíssima Trindade que me sustenta.

Em 17 de dezembro de 1982, tinha eu 13 anos de idade, a Bia dormiu e nunca mais a vi. Mas jamais deixei de senti-la, como vocês poderão atestar lendo o que escrevi para mamãe há alguns anos.

“Rio de Janeiro, 17 de dezembro de 1997.

Mãe:

Eis a letra do “doente”, que com a música fica ainda mais lancinante, falando dos netos, de seu avô, de sua infância em Paquetá:

“Na primeira febre a minha febre e quem é quem pedindo proteção?
Ponho a mão na testa do meu neto e é meu avô que está estendendo a mão.
Nessa comunhão dos três, eu sou avô do meu avô,
ele é o menino ali e ri das confusões que o Grande Amor pode fazer:
é um milagre essa multiplicação de mãos e febres por buscar ternura
e então com medo de morrer a Fragilíssima Trindade jura:
ficaremos sempre assim por perto
e quando meu neto tiver neto
uma febre unindo o que passou dirá pro Tempo: oi, meu avô…
É por aí: um piano em Debussy, o morcego e o sapoti na Praia dos Coqueiros…
o avô sou eu numa bicicleta: de canelas finas, mexe com as meninas…
Explode a trovoada, a chuva canta e a enxurrada leva todos nós,
fracionados sim, mas fusionados rumo ao delta, à queda, ao fim, à foz.
E uma vez que voltaremos
numa febre que menino-avô terei
até o Filósofo sorri: – “É o mesmo rio. Eu me enganei.”

E aí, eu ouvindo isso hoje em casa, recém chegado do trabalho, pus-me a chorar compulsivamente entre delírios e princípio de febre, que quase me enlouqueceram, sozinho que eu estava, num primeiro momento sem qualquer razão aparente.

E alimentando a “doença” que me faz cada vez mais diferente, e que faz com que eu me sinta cada vez mais distante do padrão de normalidade que acredito que assola os que me cercam, ouvi a tal faixa outras tantas vezes.

Até que me veio, nítida, a lembrança da Bia, o cheiro da Bia, o cheiro de talco e de lavanda, de hortelã e de pão-bóia, de paralelepípedo molhado de chuva, o som das tempestades que caíam sobre a telha azul e branca que cobria os carros na vila, a sensação da primeira punheta proibida entre os azulejos amarelos do banheiro daquela casa folheando a revista que trazia Adele Fátima quase nua, a sensação de proteção que a reza que ela fazia me dava, a sensação do tato, minhas mãos em busca do papo molenga que pendia do queixo e dos braços, da pele mais macia, e revivi o sorriso mais bonito que jamais vi, o sorriso daquela mulher que é a mais forte presença da minha infância, que é a fase, estou cada vez mais certo disso, que sedimenta o caráter, que forma o homem, que sustenta o homem, que faz do homem um homem, que apronta o homem, que dá sustento pro resto da vida.

E pensei tanto, e lembrei tanto da Pidoca, tive tanta saudade, e maldisse tanto a estupidez da vida, e reneguei bem mais de quinhentas vezes a existência pela crueza que é a morte, e maldisse os deuses que a levaram há quinze anos, eu tão moleque ainda, e engoli tanta lágrima, e solucei tanto, e minhas mãos tremiam tanto, e minha febre “aquarentou”, e tive tanta raiva pelo fato de não tê-la comigo ainda hoje em carne e osso, e tive tanta dor por não ter tido a chance de apresentá-la a meus amigos, e disse tantas vezes à cachorrinha que ela ia adorar a minha Bia, e apaguei todas as luzes da casa, e sentei-me na cadeira que já foi dela, nu, na posição de feto, que recém-nascido recebeu o colo mais cheiroso que jamais esqueci, que por fim, depois de tantas tentativas vãs, consegui falar com a neta da avó mais doce que já existiu.

Refeita a Trindade, fragilíssima já que sujeita ao sumiço aleatório que nos seqüestra sem aviso e nos leva ao nada que desconhecemos e que tentamos explicar das formas mais delirantes possíveis, fiquei mais calmo diante do milagre da ressurreição que o Amor, imortal posto que é chama, é capaz de tornar concreta.

Fiquei mais calmo porque entendi que nós é que somos capazes de tornar a Trindade eterna.

E acendi as luzes da casa, e acendi os refletores sobre as árvores que me vigiam noite e dia, e preparei um uísque, e acendi um cigarro, e ri quando tive pigarro, busquei à toa pastilhas Garoto que não tenho em casa, fiz carinho no pote de prata que foi dela sobre a mesa de canto da sala, e a senti nos feixes de luz na mata, a senti presente em mim, dentro de mim, e nem tentei ficar buscando explicações pra presenças intangíveis, muito menos quis acreditar em mediunidade, em alma, em espírito presente, já que eram por demais concretas as sensações em mim, em mim, em mim.

Era eu o elemento. Eu não era meio de nada, instrumento de nada, veículo de nada.

Aconteceu mesmo aquilo tudo. Em mim. Dentro de mim.

E disse ao pote, às árvores, à luz, e disse ao espelho que atestava a cor dos meus olhos: “Oi, minha Bia…, tô com saudade.”

O “doente” a que me refiro na carta é Aldir, autor da letra reproduzida, pra música de Cristóvão Bastos e gravada no disco “Novos Traços”, de Clarisse.

Um murro de emoções que me derrubou. Hoje, mais de 21 anos depois de sua partida, mais de 6 anos depois de ter enviado essa carta pra mamãe, reitero cada uma de minhas palavras. Ainda me dói sua saudade e ainda me é lancinantemente comovente encontrar mamãe e vovó juntas.

Até.

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