>PEQUENAS ANOTAÇÕES DA VIAGEM

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Doces figuras: assim eu terminei meu texto de semana passada. Pois bem. Estamos indo amanhã pra Araçatiba, uma praia encravada na Ilha Grande. Eu, Dani, Maria Paula, Pierre, Simone, Betinha, Débora, Guerreira, Sérgio e Cícero.

Quero dividir com vocês o que sobrou em minha memória já que, mantendo uma tradição de há décadas em minhas viagens, a conta do bar superou a conta da hospedagem. Em muito. Com a desvantagem de que a conta da pousada pagarei em três vezes. A do bar, à vista.

Vamos tecer pequenos comentários sobre a viagem sob a minha ótica lançada sobre os personagens, começando por mim.

A viagem de Angra até Araçatiba foi feita num barquinho pesqueiro bastante vagabundo. A placa queimava-me a vista como neon: 20 passageiros e 1 tripulante. Entraram, de fato, 20 passageiros. Só que eu valho por dois, e o tripulante – não posso deixar de rir -, sem exagero, por 4.

Pânico instalado e eu só não morri de susto porque, mal zarpou o barco do cais, uma neblina absurda de ganja densa infestou o ambiente. Cheguei tonto à Ilha Grande.

Recebidos efusivamente pelos donos da pousada Cantinho de Ará, dona Mirthes e seu Clóvis, tratamos de alertá-los para a necessidade de reforço do estoque de bebidas. Reforço que foi atendido na risca.

Voltamos na segunda-feira pela manhã depois de esvaziar o litro de álcool Pring que vazava da janela de um dos banheiros.

Dani. A coisa-mais-linda-mais-cheia-de-graça que Araçatiba já viu, seguramente.

Ela tem uma mania quando viajamos que me enternece e me assombra. Sem tempo, devido ao trabalho, de dedicar-se, digamos, 100% às tarefas domésticas, a Sorriso-Maracanã, apelido bem-dado pelo bom Szegeri, é uma coisa de atenção e zelo. Minha mochila mais parecia meu mundo. Remédios separados por doses para os dias de viagem, cuequinhas separadas por cores que devem combinar com as bermudas e com as camisetas, saquinhos para as roupas sujas, a pia do banheiro do quarto uma verdadeira réplica de nosso banheiro de casa, e aquele amor ao deitar-se que me deixa, agora enquanto escrevo, crispado de tesura.

Maria Paula. Bem, a Maria Paula, apesar de ter pago para dormir num dos quartos, preferiu, por duas noites seguidas, dormir ao relento na companhia de um paulista de Campinas, já que ela dividia o quarto com a Guerreira, e ele com um amigo. Encantaram-se mutuamente, os dois, é o que parece. A desgraça da opção dos dois foi a escolha do local. Bem na porta do meu quarto. A diversidade dos sons que vinham de fora, nas duas noites, já que a pousada fica no meio do mato, não me permite tecer maiores comentários. Mas Maria Paula está, tudo indica, pagando paixão. Caso contrário, não teria me feito estranhíssimo pedido que ainda não sei se vou atender. Apenas para manter minha linha de conduta.

Pierre e Simone. No caso dessa viagem, não é possível falar de um sem falar no outro, ambos hilariantes. Desbravadores, os dois, que se conheceram, vejam que começo comovente, numa expedição ao Buraco da Lacraia, na Lapa. Mal acordavam e faziam gestos incompreensíveis entre si e saíam chispando em busca de algo que não consegui identificar ou que não quero tornar público. No sábado, saímos todos num passeio de barco. Pierre, certamente para me humilhar, embarcou com uns óculos toscos, desses de natação, provocando o convite para mergulhos que não aconteceram de minha parte. Humilhante porque eu embarquei com máscara, respirador, nadadeiras, cinto de lastro e uma roupa de neoprene. Como de Araçatiba ao nosso destino bebi, acompanhado, cabeça por cabeça pela Betinha, 13 latas de cerveja, preferi um mergulho breve com bóias de náufrago e sem a roupa de mergulho.

Betinha. Bem, a Betinha cravou pelo menos uma frase histórica. Na manhã de sábado, durante o café da manhã, Guerreira dirigiu-se a ela e mandou: “Bebi demais ontem… minha cabeça rodava, rodava, custei muito a dormir…” Betinha, lata de cerveja na mão já às 9h e um pedaço de bolo com geléia na outra, mandou de letra: “Bebeu demais, não. Bebeu pouco. Se tivesse bebido mais sua cabeça nem chegaria a rodar, você chegaria desmaiada no quarto.” Filosofia etílica de primeira. Ah, e um detalhe que não poderia escapar-me. Todos os dias, pela manhã e à tarde, um besouro verde pousava, ora nos braços, ora nas pernas da Betinha. Há testemunhas, há testemunhas. Razão pela qual o inseto ganhou até nome: Szegeri.

Débora. Bem, chegou Débora à Ilha e voltou pra casa como Fumaça, apelido que há de ser eterno e explico-lhes a razão. Tocávamos violão e cantávamos todos na aprazível varanda da pousada. Quer dizer, todos não. Sérgio e Cícero não estavam conosco. O primeiro, a propósito, porque ninguém o viu durante os cinco dias de viagem. O segundo porque a TV estava desligada. Pausa para pigarros de maldade. Mas como eu ia dizendo, eu, que tinha o violão no colo, Dani, Guerreira, Betinha e Débora – ainda Débora – bebíamos e cantávamos desde os clássicos da bossa-nova até sambas-enredo históricos. Bebíamos, todos, cerveja. Com exceção da Débora que, sentada num degrau da varanda, abraçada a uma garrafa de Nêga Fulô, sorvia em goles vigorosos a branquinha. Mas bebia mesmo. A garrafa estava por dois dedos quando ela interrompe, aos gritos, uma canção. Eu estava tocando “Águas de Março”, o cigarro aceso pousado no cinzeiro, a latinha de cerveja à frente, todo mundo fazendo côro, quando vieram os urros: “Pára, pára, pára, Edu!” Débora foi cravejada de olhares críticos e mandou a pérola: “Aê… (a voz completamente pastosa)… toca mais devagar… tá saindo fumaça do seu violão” Fumaça. Eis o apelido dado na hora. E para sempre.

Sérgio. Bem, o Sérgio, como eu disse, foi-mas-não-foi. Nem dona Mirthes o via. Saía para caminhar, me contaram os urubus, antes das 6h. Voltava, sabe-se lá a que horas, porque também ninguém o via. Um mistério. Foi visto algumas vezes debruçado sobre calhamaços de papel, sem que uma palavra, monossílaba que fosse, escapasse de sua boca. Ninguém o viu partindo também. Nenhum barqueiro soube dizer nada. Dona Mirthes, fervorosa católica, jurou que Sérgio voltou caminhando sobre as águas.

Cícero. Ele, que na noite do reveillón, num transe, adotou-me como pai, viu, todos os dias, “Chocolate com Pimenta”, “Da Cor do Pecado” e “Celebridade”. Esbofeteou-se com Maria Paula quando exigiu a TV ligada para assistir Zorra Total no sábado. Não sei se é verídico, mas vale constar das anotações. Como voltou de barco pra Angra no horário do Fantástico, ficou irritadíssimo quando descobriu, já embarcado, que não havia TV a bordo.

Enfim, o final de semana prolongado foi memorável.

Houve ainda chôro convulsivo da Guerreira, que lembrando a Guerreira dos melhores dias bebeu quase que a Ilha toda, Vasco e Flamengo na TV (todos têm seu dia de Cícero numa ilha semi-deserta), muita lula recheada, quibe de peixe, e promessas de novas viagens que serão, todas, dissecadas por aqui.

Até.

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