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CARTA ABERTA PRA LUIZ ANTONIO SIMAS E UMA CONVOCAÇÃO

Simão, meu irmão, guardo, como tesouro, as primeiras palavras que você dirigiu a mim, em 18/08/2006, há mais de sete anos, portanto, aqui mesmo, pelo blog, poucos dias antes de nos conhecermos pessoalmente, na livraria Folha Seca, apresentados que fomos pelo Rodrigo Ferrari:

“Eduardo, sou um leitor assíduo do blog, morador do Maracanã, amigo do peito do grande Rodrigo Ferrari (da inestimável livraria Folha Seca) e admirador das suas campanhas cívicas – sim, cívicas – contra as sem-vergonhices do Jota e dos Leblons da vida. Mas sempre estive em silêncio obsequioso. Hoje, porém, vou me manifestar: sensacional! Como eleitor e admirador do velho, aplaudo de pé a cena! Quanto ao Roberto Talma… nunca me enganou! Francamente… abraço.”

É como tesouro, também, meu compadre, que guardo outra de suas declarações dirigidas a mim, essa de primeiro de novembro de 2011, quando eu ainda era todo-dor:

“É uma tranquilidade saber – e digo isso profundamente comovido – que envelheceremos juntos, como irmãos que somos. Mais confortante ainda é saber que um dia, quando um de nós se encaminhar pela noite grande do Orum, o que ficar mais tempo por aqui contará e cantará dessas coisas do amor de amigos – o que permanece. Beijo.”

E lhe escrevo hoje, publicamente, e publicamente faço escancarada declaração de amor, porque fuçando, mais cedo, esses meus escritos, dei de cara com esse A força das palavras do Simas, de 13/11/2006, no qual digo que “é mais-do-empolgado que quero recomendar, expressamente, os dois últimos textos escritos pelo Simas, de quem tenho tremendo e quase que inexplicável orgulho.”.

E eu, hoje, tendo estado no lançamento do seu livro com o Loredano sobre o J. Carlos, tendo estado no lançamento do seu livro com o Beto Mussa sobre sambas de enredo, tendo estado no lançamento do seu livro sobre a Portela, às vésperas do lançamento do seu Pedrinhas miudinhas – ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros, amanhã a partir das 14h justamente na Folha Seca – onde nos reconhecemos em 2006 – estou comovidíssimo, emocionado, orgulhoso.

Fuçando ainda mais minhas coisas, minha imensa memorabilia, encontrei e-mail de 05/06/2013 do Vitor Monteiro de Castro, que segue transcrito:

“Edu, tudo bem? Há tempos não nos falamos, não sei nem se lembra de mim. Certa vez foi à Maré e tomamos uma cerveja lá – e terminamos na Tijuca. Na época eu trabalhava no Observatório de Favelas. Bom, escrevo para pedir um favor: o contato do Luiz Antônio Simas. Seguinte, há dois anos saí do Observatório na perspectiva de abrir uma editora. Daí que a editora está caminhando (www.morula.com.br) e o Simas é um dos autores que a gente gostaria de publicar. Queria marcar um papo com ele para pensarmos em possibilidades. Abração.”

Breve pausa, querido: imagine você se eu não me lembraria do Vitor, que ciceroneou uma visita minha com a Dani à Maré, para conhecer o Observatório de Favelas e seu impressionante trabalho e para lá assistirmos, na rua, a um filme sobre o Chacrinha! Dá pra esquecer?!

Vai daí que eu fui tecendo uma teia, à moda da asa do vento de Luiz Vieira e de João do Vale, e fui ficando cada vez mais comovido com as lembranças, até que decidi vir desagüar aqui, publicamente, para aplacar a ansiedade (seguramente estou mais ansioso que você, você me conhece!) e pra manifestar minha felicidade pelo dia de amanhã.

Arremessei-me a 2006, quando nos conhecemos, atravessei 2007 e cheguei ao primeiro dia do ano de 2008, quando você – sábio, sacerdote, mais-velho – me deu seu ileke, que você tirou do pescoço, na esquina da Pardal Mallet com Afonso Pena, seu ileke de contas vermelhas, pretas e azuis, nós que somos filhos do mesmo pai. Cheguei ao dia de meus 40 anos e me veio sua imagem, vestido de Bangu, chegando pra feijoada que eu ofereci, trazendo nas mãos um imenso embrulho feito de jornal (lembro também da indignação da Candinha com a beleza da embalagem!), com a imagem de São Jorge Guerreiro, Ogum!, que guardava o congá do terreiro de xambá comandado por sua avó – e que hoje guarda minha casa. Lembrei-me de quantas vezes recorri a você, meu velho Simas, para que você me contasse sobre as coisas da vida, sobre os mistérios do invisível, de quantas vezes cantei, sozinho, as tuas canções – “alivia a minha dor enquanto pila o pilão” -, de quantas vezes estivemos juntos no sagrado espaço de um botequim em busca da reinvenção da vida, essa arte e essa lição que você, professor maiúsculo, domina como ninguém. Lembrei-me de tua chegada, sereno, com um Red Label debaixo do braço, na madrugada de 10 de julho de 2011, quando teu abraço foi um dos maiores antídotos que jamais experimentei: e sem que palavra tenha sido dita. Você, um sabido! Do dia em que você, reinventando a liturgia do cargo, nomeou-me padrinho-de-rua do moleque Benjamin, filho do homem que sopra no meu ouvido e que reconheço, muitas vezes, nos seus gestos (seus e dele). Lembro de tudo, Simão, e agradeço por tudo – eu na condição de aprendiz, de privilegiado, de testemunha ocular da genialidade e da potência do seu conhecimento, passado e repassado na contramão da cátedra arrogante que busca segregar, humilhar, diminuir. Você, a antítese do mestre inatingível. Você, o que ensina porque fala a língua do povo, da nossa gente, da nossa terra, do nosso Brasil. Um país mais rico porque tem você como um de seus filhos, de chinelo de dedo e copo de cerveja na mão.

Parabéns antecipado, meu irmão.

Estaremos lá amanhã, eu e a Morena, a fim de abraçá-lo e de festejar, ao seu lado, a luz e o axé que vêm da miudinha.

Amo você.

Axé.

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APOSENTOU-SE, O BIGODE – PEQUENAS DIGRESSÕES

Dia desses, minha Morena é testemunha, fui ao Salão América fazer a barba e saí de lá com a cara lavada de tanto que eu chorava. Explico: eu freqüento a Barbearia Salão América desde o dia 21 de março de 1970, quando eu tinha pouco mais de 10 meses de idade, (e se você duvidar de mim, basta ver as provas inequívocas aqui), portanto há mais de 43 anos, e naquela manhã, depois de ter dado por falta do seu Ernesto no comando da cadeira do fundo, perguntei por ele ao Raul, que me respondeu com a voz embargada:

- Tá em Portugal. Aposentou. Nem sei quando volta…

Essa resposta, o tom da voz do velho Raul (que foi quem cortou meu cabelo em 1970), essa permanente dificuldade para lidar com a perda, a certeza de não mais ver e ouvir a gargalhada daquele português naquele salão que faz parte dos meus cenários há mais de quatro décadas, me fez sair de lá chorando como criança de 10 meses sem colo de mãe.

Hoje soube pelo Gabriel Cavalcante, tijucano de escol, que outra grande figura do bairro, uma lenda-viva para os freqüentadores do Bode Cheiroso, glorioso botequim na rua General Canabarro, também acaba de se aposentar: o Bigode, que aparece na foto abaixo, de autoria do próprio Gabriel.

Bigode do Bode Cheiroso

Sobre o Bigode, escreveu meu irmão e meu compadre Luiz Antonio Simas:

“(…) A começar pelo Bigode, que controla o balcão feito Domingos da Guia dominava a grande área e abre cerveja atrás de cerveja como Garrincha enfileirava os marcadores. É craque.

Eu só acredito em garçons que pareçam egressos do cangaço. São cada vez mais raros diante da profusão dos garotões de aventalzinho, das moças moderninhas e dos descolados que pululam feito mato nos bares de grife. A  destreza com que Bigode abre uma ampola cu de foca – como se fizesse isso desde que o primeiro hominídeo caminhou ereto na Serra da Capivara – é a mesma com que Lampião manuseava o fuzil parabelo.”

E era assim mesmo.

O Bigode, assim como o seu Ernesto, habita o meu imaginário (e 0 meu dia-a-dia!) desde há muito.

Eu era um moleque e a rotina das manhãs era a mesma: papai ia nos deixar muito cedo no colégio, a caminho do trabalho. Parava todo santo dia, de 2ª a 6ª, no número 218 da General Canabarro, Bar Macaense pra turista, Bode Cheiroso pros íntimos. E todos os dias pedia seus 4 maços de Shelton Light e sua garrafa de água com gás, Caxambu, quando as garrafas d´água eram de vidro.

E lá estava ele, todos os dias – o Bigode.

Mudamo-nos dali, a rotina matinal deixou de ser cumprida mas eu jamais deixei de ir ao Bode Cheiroso.

Aqui, em março de 2007, o relato de um dia que terminou na calçada em frente ao bar. Aqui, em maio de 2009, um encontro antes e depois de um jogo no Maracanã. Aqui, em texto do mesmo 2009, uma das clássicas fotografias, de minha autoria, tirada no Bode Cheiroso, de Luiz Antonio Simas. Aqui, em junho de 2011, na concentração para a final da Copa do Brasil, Coritiba e Vasco.

Não são muitos os registros – escritos ou fotográficos – que tenho do bar e do Bigode.

Mas são incontáveis as referências dentro de mim.

Com o seu Ernesto e com o Bigode aposentados – merecido descanso depois de anos de bons serviços prestados – a Tijuca fica um pouco mais sem graça.

Até.

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NÓS, OS FOLIÕES

Ontem, 14/01/2013, meu compadre-de-rua, Luiz Antonio Simas, publicou Nós, os foliões, que pode ser lido aqui. Temos, eu e Luiz Antonio – e Fernando Szegeri, seguramente – visões muito semelhantes sobre o Carnaval. Aqui, por exemplo, você poderá ler muito do que já escrevi sobre o tríduo de Momo (aproveitem e leiam também esse texto aqui, delicioso relato do homem da barba amazônica, de 2007). Razão pela qual, sem pudor algum, 24h depois, valendo-me do mesmo título, retomo o assunto.

Pausa para exibição da fototeca: a foto abaixo, de 1974, exibe esse que vos escreve nos ombros do velho pai, imperiano de fé e completamente alucinado, até hoje, pelo Bafo da Onça.

D (14)

Voltando e fazendo, de leve, breve digressão.

 Quem me lê sabe o quanto, e há quanto tempo, eu brigo contra o que fazem com os botequins da minha mui amada e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Fomos assistindo, aos poucos, à morte dos botequins mais vagabundos em nome da “tendência”, em nome do “serviço diferenciado”, em nome das “franquias”, em nome dos festivais que ajudam a descaracterizar o ambiente autêntico das biroscas, das tendinhas, dos pés-sujos. Eu era – e nunca me importei com isso, ao contrário do que se pode pensar – o chato que de tudo reclamava. Por isso acho graça que hoje, muitos anos depois, tanta gente esteja por aí a lamentar o rumo que as coisas tomaram nessa área: contam-se nos dedos os pés-sujos na zona sul da cidade. Tesouros, em todos os bairros, desapareceram para dar vez a botequins de luxo que nada têm a ver com a cidade e sua gente.

Valho-me da autoridade que o Simas têm – já que tenho quase-nenhuma! – para demonstrar que era e é legítima minha grita. Eis comentário do bardo da Tijuca, em 18/08/2006, na primeira vez em que o mesmo manifestou-se no blog, antes mesmo de nos conhecermos pessoalmente:

“Eduardo, sou um leitor assíduo do blog, morador do Maracanã, amigo do peito do grande Rodrigo Ferrari (da inestimável livraria Folha Seca) e admirador das suas campanhas cívicas – sim, cívicas – contra as sem-vergonhices do Jota e dos Leblons da vida. Mas sempre estive em silêncio obsequioso. Hoje, porém, vou me manifestar: sensacional! Como eleitor e admirador do velho, aplaudo de pé a cena! Quanto ao Roberto Talma…nunca me enganou! Francamente… abraço.”

Ao se referir às “sem-vergonhices do Jota e dos Leblons da vida”, Simas falava justamente das minhas denúncias, quase diárias, contra o jabá que corria (e ainda corre) solto na coluna Gente Boa, do Segundo Caderno de O Globo, assinada pelo Joaquim Ferreira dos Santos (o “Jota”) para favorecer os bares-limpos que explodiram no Leblon (Conversa FiadaBotequim InformalBelmonte etc.).

Com o Carnaval, de certo modo, dá-se o mesmo.

A babaquização da festa sagrada, profana, está aí, diante dos olhos de todo mundo e todo mundo acha graça, acha o máximo.

Eu até vejo certa vantagem em todo esse processo… Enquanto os mais-jovens, os universitários, os cheios-de-lêndea do PSOL, fundam blocos que tocam de tudo – menos Carnaval – e arregimentam uma multidão de idiotas que vão em busca, apenas, de festa e pose, mais vazios ficam os que se prestam ao papel do Carnaval – que pouca gente, de fato, compreende qual é.

A exceção, por tudo o que representa, é o Cordão da Bola Preta. Ali, ao lado dos fantasmas que deram o primeiro sopro no começo do século passado, é que eu mergulho nas manhãs de sábado para só renascer e reaparecer com as cinzas da quarta-feira.

Até.

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O OUTONO DO TEMPO DE FERNANDO SZEGERI

Meu irmão e compadre, Luiz Antonio Simas, só pra manter a tradição, escreveu o que eu gostaria de ter escrito sobre Fernando Szegeri, também meu irmão e compadre, aqui, no comovente convite em forme de texto, Os oito baixos de Fernando Szegeri. E o fez por conta do lançamento do livro Outono do meu tempo, de autoria do homem da barba amazônica, na próxima segunda-feira, 03 de dezembro, na livraria Folha Seca, a livraria do meu coração, na rua do Ouvidor nº 37.

Corri atrás do que disse sobre o Szgeri nosso irmão em comum, o saudoso Fernando Toledo, que conosco dividia o blog – o Conexão Irajá, que pode ser lido aqui - que durou até durar Fernando Toledo, de quem tenho aguda saudade e que estaria orgulhoso com a publicação do primeiro livro de seu xará.

“Szé, O Impronunciável, também conhecido pela alcunha de Zé do Guéri Guéri (apud Nei Lopes) é uma criatura capaz de chegar num botequim às oito, beber todo o estoque de tudo que não o morda antes e ainda emitir opiniões inteligentes de madrugada, a caminho da rodoviária (e olhem que esta é apenas uma das histórias que testemunhei). Sabe-se lá para que em que mundos, em que estrelas se escondem os litros consumidos. Nascido por mero acaso em São Paulo, é mais carioca que 99,999999% da população do balneário. No café da manhã, bebe três doses de pandeiro, misturadas a quatro piadas de português e arrematadas com seis comentários sobre a bunda da mulher que acabou de passar. Existência saudável, esta do Szé.”

Pois quero dar meus humílimos pitacos sobre Fernando Szegeri, sempre citado por aqui, e fazer a convocação a todos vocês que me lêem, porque o lançamento de seu livro na Folha Seca, na rua do Ouvidor, onde está plantado o axé dessa cidade que ele tanto ama, é a grande pedida da segunda-feira.

Pai dedicado de três filhos (sou padrinho de suas duas meninas…), funcionário público igualmente dedicado, cantor de mão-cheia (ouça-o aqui, cantando uma obra-prima de Aldir Blanc), pensador inquieto e arquiteto de idéias geniais – um filósofo – o Fernando é, de longe, o sujeito que mais sabe de mim – e isso, talvez, por conseqüência de observações minhas, ao longo dos anos (antes mesmo de conhecê-lo) que foram me dando a certeza de que ele era um exemplo a ser seguido (é, também, um de meus orixás vivos).

É um brasileiro máximo, e não há nada no Brasil, o mais profundo, que lhe escape.

Em maio de 2005, quando lançamos o Conexão Irajá, tasquei lá:

“Minha alma irmã, é de longe o sujeito que mais chora que já conheci. Emociona-se com a mesma intensidade com que bebe e destila genialidade. Está para mim como Otto Lara Resende para Nelson Rodrigues. Um colosso de inteligência.”

E revalido, palavra por palavra, o que disse há mais de sete anos.

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O Fernando, ao mesmo tempo que é minha alma irmã, é um mistério pra mim. E eu acho que é um mistério pra mim porque eu não consegui, até hoje, depois de quase 15 anos de intenso convívio, dimensionar sua importância, compreender sua grandeza e absorver todos os seus ensinamentos.

Em seu livro, uma coletânea de mais de 25 anos de reflexões – não é coisa pouca.

E na segunda-feira – para encerrar essa convocação – você (como eu) terá a chance de vê-lo em ação: à mesa, entre os amigos, na cidade que tanto ama (na mesmíssima proporção em que a domina), na livraria que tem a cara dessa cidade, autografando Outono de meu tempo.

E vai que você dá sorte e vê, de perto, ao vivo e a cores, esses dois monstros – Luiz Antonio Simas e Fernando Szegeri – cantando juntos? Porque onde está Fernando Szegeri, meus poucos mas fiéis leitores, há música.

Até.

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FALTAM 21 DIAS…

Faltam exatamente 21 dias. Às nove e meia da manhã do dia 18 de fevereiro estará aberto, oficial e subversivamente, o Carnaval no Rio de Janeiro. Digo subversivamente porque nasceu, o Cordão da Bola Preta, de forma absolutamente subversiva. Proibidos pelo Chefe da Polícia de então, os cordões (uma espécie de dissidência e de versão esculhambada dos blocos e das sociedades) no Carnaval de 1919, nasceu na extinta Galeria Cruzeiro, no Centro do Rio, da cabeça de um bando de malucos, o Cordão da Bola Preta, que faria seu primeiro desfile (ou seu primeiro baile, como preferem alguns) no dia 31 de dezembro de 1918. Em 2012, então, com 92 anos e alguns meses de vida, fará, o glorioso cordão, mais um desfile pelas ruas do Centro.

Sobre o Cordão da Bola Preta, nos conta Jota Efegê, em seu Figuras e coisas do Carnaval carioca:

“Nas proximidades do carnaval que, naquela época (1918), começava a ferver desde outubro nos festejos da Penha, o folião K. Veirinha erguendo seu copo de chope resolveu desafiar o chefe de polícia: “Vamos formar um cordão!” E, mostrando sua disposição de luta contra a autoridade, concluiu: “Ele disse que vai fechar todos os cordões, mas o nosso ele não fecha! O nosso é de bola preta!” Toda a turma, já com duas ou três altas pilhas de cartões na mesa, topou a parada e resoluta, pondo em alvoroço o Bar Nacional, da famosa Galeria Cruzeiro, prorrompeu em vivas seguidos.

Nascia, desse modo, em meio de uma reunião boemia, que acontecia normalmente, todas as tardes, o já hoje tradicional Cordão da Bola Preta, conhecido em todo o Brasil e também no estrangeiro. Ficava, igualmente, consagrado como folião, pois que já o era desde rapazola, o Álvaro Gomes de Oliveira, conhecido no Clube dos Democráticos como Trinca Espinha, apelido mais tarde substituído pelo de K. Veirinha.

À guisa de biografia

Antigamente, todos os associados de destaque dos grêmios carnavalescos adquiriam um pseudônimo sempre precedido de aristocrático Lord. Assim, Álvaro de Oliveira que, ainda garoto, de menor idade, conseguiu ser sócio dos Democráticos quando o alvi-negro tinha sede no Largo do Machado, ganhou sua alcunha. Deram-na, mais tarde, já na Rua do Hospício (hoje Buenos Aires), para onde o clube se transferiu, uma bem divertida: Lord Trinca Espinha. Continuou com ele da Rua dos Andradas e também na do Passeio, locais onde os valorosos ‘carapicus’ estiveram instalados.

Só em 1918, depois da terrível epidemia de ‘influenza espanhola’, da qual, conseguindo escapar, ficou, no entanto, bastante magro, esquelético, perdeu sua antonomásia. Um amigo, vendo-o em tal estado exclamou: “Puxa, você parece uma caveira”. À tarde, na costumeira chopada do Bar Nacional, a turma homologou definitivamente o apelido: “Viva o K. Veirinha!” Nunca mais se deixou de chamá-lo por esse diminutivo ou de completar seu verdadeiro nome com ele: “o Álvaro K. Veirinha”.

K. Veirinha enfrenta o chefe Leal

Carnavalesco de quatro costados, integrante de um grupo do qual faziam parte, entre outros, os irmãos Oliveira Roxo (Jair, Jorge, Joel), Chico Brício, Archimedes Guimarães (Fala Baixo), Álvaro de Oliveira era desassobrado. Ao ler nos jornais uma portaria do chefe de polícia, Dr. Aurelino Leal, achou o momento propício para mostrar sua coragem. Rigorosa, ameaçadora, a publicação dizia: “Os grupos e cordões que perturbarem a ordem pública terão suas licenças cassadas, sendo os perturbadores presos e processados, na forma da lei”. Proibia, ainda, mais adiante, de maneira igualmente decisiva, a fundação de grupos similares.

Longe de se amedrontar e disposto a topar uma parada com o “chefão” temido, o grupo das alegres reuniões chopísticas de um dos bares da galeria Cruzeiro seguiu coeso o líder K. Veirinha. Iriam, todos, desobedecer o mandachuva. Alugaram a sede do Clube dos Políticos, na Rua do Passeio, e na noite de 31 de dezembro de 1918, com um “maixético e rebolativo baile” (como era de praxe qualificar as festas dançantes carnavalescas) consumavam a deliberação. Iniciava, assim, o hoje famosíssimo Cordão da Bola Preta e sua brilhante e vitoriosa trajetória.

Tradição da Bola Preta

O sucesso da noitada de nascimento do Cordão da Bola Preta, com o salão apinhado e a fachada do clube feericamente iluminada, abriu-lhe caminho fácil nos meios carnavalescos. Seus iniciadores (K. Veirinha, Chico Brício, Vaselina, Pato Rebolão, Fala Baixo, Porrete e outros) puderam levar à frente o foliônico grêmio sempre com seus bailes excessivamente concorridos. Sem instalação definitiva, realizando seus fandangos na Rua 13 de Maio, no Palace Clube, na Cinelândia, num salão do antigo Liceu de Artes e Ofícios, acabou, por fim, rico e poderoso, com a sede própria que ora possui.

Álvaro de Oliveira viu, desse modo, triunfar sua iniciativa ao mesmo tempo que se firmava uma tradição levando o nome do cordão até ‘as estranjas’ como fator preponderante do fascínio do nosso Carnaval. Os turistas que aqui chegam para conhecer o nosso famoso tríduo de Momo desembarcam na Praça Mauá ou no Galeão perguntando pelo baile do Teatro Municipal e também pelo do ‘Bôle Preete”. Coisa que, inegavelmente, apesar do seu feitio boêmio, desprendido, envaidece o K. Veirinha, fundador e sócio número um, benemérito, na prestigiosa agremiação.

Saudosista, mas não muito

Afastado das homéricas “farras” dos áureos tempos em que o Carnaval carioca conseguia dividir durante o ano inteiro a cidade em três facções: ‘baetas’, ‘gatos’ e ‘carapicus’, Álvaro de Oliveira é agora um homem tranqüilo. O folião K. Veirinha hoje é apensa um assistente da festa de Momo. Às vezes, matando saudades, aparece no cordão e vê seus sócios vibrando, entoando o hino feito pelo maestro Vicente Paiva e Nelson Barbosa para empolgar a moçada: “Quem não chora não mama, segura, meu bem, a chupeta. Lugar quente é na cama ou, então, no Bola Preta”.

Recorda, vendo a animação reinantes bons tempos. Lamenta não encontrar ali a ‘velha turma’, em grande parte desaparecida, ou, como ele, fora da ‘linha de fogo’. Orgulha-se, porém, de ver seu cordão vibrante, nascido de uma rebeldia momentânea, resultado da desobediência ao ‘chefão’, abrilhantando de maneira decisiva a maior festa da Cariocolândia. Caminhando para o meio século de existência o Cordão da Bola Preta, sólido e vitorioso, faz também (reconhece ele feliz e exultante), a consagração de seu apelido: K. Veirinha.”

Eu já lhes contei, incontáveis vezes, o que é representa, pra mim, a saída do Bola Preta (vejam, aqui, vídeo gravado no dia 20 de janeiro de 2009, eu, Gabriel Cavalcante no cavaquinho, Leal no tamborim e Tiago Prata no sete cordas, na Folha Seca, cantando Bola Preta, choro de Jacob do Bandolim com letra póstuma de Aldir Blanc contando toda a história do cordão, que pode ser lida – e ouvida, na voz de Aldir -, aqui). Mas esse ano, nesse ano de 2012, vai ser diferente…

Anseio, com a ansiedade de um menino, pela sexta-feira da véspera. Pela noite que será, eu sei, passada em claro. Pelas primeiras luzes do sábado, pelo primeiro gole, ainda dentro de casa, pelo trajeto até o Centro. E o Bola Preta, subvertendo de cara a lógica e o trajeto de tantos anos, não partirá da Cinelândia, mas da Candelária. Vai ser ali, diante da imponente Candelária, a concentração do Bola Preta que, a se confirmar o crescimento ano a ano que se vê nas ruas, arrastará mais de dois milhões de foliões pelo asfalto quente da Rio Branco em direção à Cinelândia, palco de tantas manifestações da força do povo do Rio de Janeiro.

Anseio pelo Sábado de Carnaval, pelo primeiro grito do Bola Preta, para dar início ao processo pagão e milagroso que a festa momesca impõe aquele que se entrega, de corpo e alma, aos ritos carnavalescos. Como disse, certa vez, o mestre Luiz Antonio Simas, “o carnaval não é uma festa dos alegres, mas sim dos tristes.”. Disse mais, o professor: “O carnaval é um período marcado pelo símbolo da máscara, onde se inaugura a idéia de esquecimento do que efetivamente somos. Desde os primórdios da festa, a função social do carnaval é promover a inversão dos valores do cotidiano. O homem veste-se de mulher, o careta toma porres homéricos e por aí vai. O carnaval é o tempo do esquecimento necessário. (…). O que está presente no carnaval é, antes de tudo, a pulsão de morte. Matamos o que somos o resto do ano, repletos de horários, compromissos, burocracias e por aí vai. O lugar dos alegres é o camarote da cervejaria, a feijoada do Amaral e outras merdas do gênero. O grande folião, tenha certeza disso, é um triste.”. Outro sujeito a quem respeito, Claudio Renato, cravou na mosca: “Carnaval é a festa dos tristes, dos refugiados, dos abandonados, dos enganados, dos humilhados, dos ultrajados, dos vencidos, dos lusitanos, dos nostálgicos, dos moribundos, dos desempregados, dos deserdados, dos órfãos. Carnaval é a festa máxima do povo brasileiro.”. E, pra encerrar as citações que dão mais peso ao que lhes escrevo, Fernando Szegeri (Divagações cinerárias, em 22 de fevereiro de 2007, aqui):

“A verdade, meus amigos, é que o folião é, acima de tudo, um altivo. Daquela altivez de que nos fala Pièrre Verger ao observar que Pai Balbino, um humilde vendedor de quiabos na feira de Água dos Meninos, portava-se com a dignidade de um rei, por ser filho de Xangô. Daquela soberba que nos percorre o corpo e a alma depois de uma noitada boa de amor, ao encontrar de manhã no elevador a vizinha carola do 1201.

O folião, na quinta, sexta-feira que precedem os dias de Carnaval, encara as pessoas na rua, no ânibus, com uma acachapante superioridade. Tem pena de seu patrão, despreza o seu senhorio. Ele sabe, no seu íntimo, que a cidade lhe pertence, que as coisas na verdade não são como parecem na maioria dos dias; que a superioridade que o capataz lhe cospe reitaradamente às faces é uma ilusão que lhe custará caro. São chegados os dias em que tudo assume a sua feição verdadeira, em que as máscaras cinzentas que foram impostas à realidade são impiedosamente arrancadas. Essa efêmera mas irrefutável prova sobre o verdadeiro estatuto das coisas lhe propicia um inexprimível sentimento duplo de superioridade: por ter consciência desta realidade e por saber-se o senhor livre e soberano de seu próprio destino.

É por isso que ao folião repugnam as insuportáveis pessoas que simplesmente ignoram o Carnaval. Não as que o odeiam. Ele compreende que para os que se arvoram em donos das coisas e dos destinos nos outros trezentos e sessenta e um dias, a visão crua da realidade absolutamente diversa lhes seja insuportável. Aos que francamente detestam o Carnaval o folião responde com um sorriso de aviso: não tentem interferir no desvelamento essencial desses dias; contenham-se nos limites da sua mentira. Mas aos que ignoram o Carnaval, que estampam em suas faces lânguidas e mortas a sua estupidez indiferente, o folião devota, muito mais que piedade, um ódio secreto, um desprezo absoluto pela incapacidade de exercerem um atributo tão fundamental e tão simples de sua humanidade.”.

É isso, meus poucos mas fiéis leitores.

Faltam 21 dias. E eu serei, nesses dias que antecedem o Sábado de Carnaval, um ansioso à espera da apoteose das apoteoses.

Até.

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O MENINO BENJAMIN

Quando escrevi o texto que publiquei anteontem, lhes contei:

“(…) e fechando a semana de beleza intensa, outra notícia de me-derrubar: Luiz Antonio Simas e Candinha, pais do pequeno Benjamin, deram-me a incumbência de apadrinhar o moleque, o que me fez chorar quase o dia inteiro ontem. Eu não tenho mais, disse isso a eles, a coisa mais bonita que eu sempre pude oferecer aos meus afilhados, que é a dinda… Mas serei, lá vai mais uma certeza, o melhor padrinho do mundo pro garoto. A vocês, meus irmãos Simas e Candinha, minha gratidão, meu respeito e minha emoção mais pura.”

E talvez não tenha sido preciso do início ao fim pela primeira vez – explico.

A incumbência que me foi dada – a de ser padrinho do moleque – tem uma peculiaridade que ainda não lhes contei: eu serei, segundo me foi dito, o padrinho de rua do garoto, ou, como também me disse o pai, seu padrinho de carioquismo – e ambos os títulos me comovem sobremaneira. A cerimônia de batismo, absolutamente ecumênica e carioca, sincrética e simples, será no Aconchego Carioca, quintal de tantas domingueiras – na Tijuca, é claro.

Mal sabem os pais, entretanto – ou sabem… e é claro que sabem, eles que são dois craques, sensíveis da sola dos chinelos à raiz dos cabelos (no caso do pai, dos poucos que lhe restam…) – que esse presente que acabam de me dar, que é a honra de apadrinhar o menino, me chega num momento em que vivo absolutamente só e sem nada – é como me sinto. Quase seis meses depois do desaparecimento da Dani ainda não (re)aprendi a viver.

E é assim, eis a confissão que quero lhes fazer nessa manhã de Natal, eis a confissão que faço a Candinha e a Luiz Antonio Simas, que recebo o pequeno Benjamin: com a alma renovada pela gargalhada do menino, com a mesma disposição que ele tem, aos nove meses, de, engatinhando, engatilhar as pernas e os joelhos em busca do primeiro passo. Benjamin, filho de Exu, por Exu protegido – foi o que disse o Ifá – há de ter, no padrinho de rua, filho de Ogum como seu pai, um padrinho dedicado que, de certa forma, nasce e cresce junto com ele.

Como se não bastasse seu pai, um brasileiro máximo, um carioca apaixonado por São Sebastião do Rio de Janeiro, como se não bastasse a mãe, a candura e a dedicação em pessoa, Benjamin terá do dindo o que, sei, seus pais esperam. No que depender de mim, Benjamin saberá, desde tenra idade, que tenra também é nossa terra e tenro também é nosso chão. Saberá respeitar os mais-velhos, os cabeça-branca, saberá que nascemos e vivemos numa cidade e num país moldados pelas mãos calejadas de tanto bater tambor, de tanto cortar cana-de-açúcar, numa cidade que guarda nas pedras pisadas do cais o monumento de nossa alma tantas vezes fustigada e lanhada pelo chicote do feitor. Benjamin caminhará pelas ruas como quem samba, bordejará como um choro do Pixinguinha, saberá driblar as agruras da vida como nos ensinou, a todos, o Anjo das Pernas Tortas. Benjamin, filho de Exu e por ele protegido, reconhecerá em mim o irmão de fé de seu próprio pai, e eu serei, como me ensinaram os mais-velhos, o padrinho (o pai-pequeno) que ele sonhou antes de voltar à Terra. Benjamin há de saber quem foi o Velho Lua, há de se orgulhar de ser bisneto de Luiz Grosso a quem nem eu mesmo conheci, mas a quem reconheci, desde o primeiro encontro, nos olhos claros de seu pai de sangue. Benjamin há de saber do jongo, do candomblé, da umbanda, da macumba e do xambá, e há de sorrir – eu sei que ele vai sorrir! – quando der de frente com o São Jorge, com o Ogum que guarda minha casa e que guardou, durante muitos anos, o congá de sua bisavó, nos terreiros de encantaria que foram o quintal de seu pai. Há de respeitar, o menino Benjamin, as árvores e os rios, a pedrinha miudinha, o tempo quieto e as mais violentas ventanias. Benjamin há, no que depender de mim, de louvar, permanentemente, nossa ancestralidade, os orixás e os encantados.

Benjamin, que já hoje vive mais à vontade na rua do que em casa, há de respeitar as esquinas e gostar de futebol. Há de, como seu pai Exu, entender que o branco e o preto, que a dor e a alegria, que a claridade e o breu, são tênues diferenças que só os mais sabidos compreendem.

Benjamin há de saber da Dani, minha menina, ela também comadre de seus pais, e vai entender que muito do que vai em mim foi por ela plantado e é por ela, pela saudade que ela deixou, mantido. Há de entender, o homem Benjamin, que as mulheres são tudo e que não somos nada…

Há de ser, como são seus pais, um brasileiro máximo. E cresceremos muito, e cresceremos juntos, e seremos, também, irmãos de fé.

De novo, mais uma vez, minha mais profunda gratidão a Candinha e a Luiz Antonio Simas. Vocês, meus amados irmãos, me salvam.

Até.

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DANIELLI PUREZA, UM PRÊMIO

Vira-e-mexe digo pra mim mesmo a frase com que um de meus orixás vivos, Aldir Blanc, encerrou uma de suas cartas dirigidas ao jornalista Arthur Dapieve, aqui: “Milhões e milhões de pessoas vivem e morrem sem conhecer esse sentimento.”. Aldir se referia, ali, ao amor que nutre pela sua mulher, e a frase é exatamente perfeita se aplicada a mim, que vivi com minha menina, desaparecida desde 09 de julho de 2011, uma história de amor dessas que chegam a doer de tão bonitas e intensas.  Eu, que tão despudoradamente venho, desde sempre!, contando aqui as nossas (e agora minhas…) histórias, estou chegando ao fim de uma semana que me foi emocionante como há muito eu não atravessava.

Na terça-feira fui surpreendido com um e-mail que me foi enviado pelo Sergio Barreto, Diretor de Pesquisa & Desenvolvimento do Ometz Group, que (retirado daqui“opera nos segmentos de educação e comunicação. Está presente em mais de 70 municípios brasileiros e também na Argentina e EUA. Hoje, fazem parte de sua holding 15 empresas e mais de 19 mil profissionais. Com a abertura do sistema de franquias, em 2000, e a criação da Lexical, em 2003, a companhia vivenciou o maior crescimento da sua história até então. Também em 2003, a empresa inovou e abriu sua primeira unidade offshore, destinada ao ensino de inglês para funcionários de plataformas de petróleo. Em 2005, a empresa deu seu primeiro grande passo em direção ao segmento de comunicação, com a produção do longa-metragem That´s All About Fame, que compõe o material didático da Wise Up. A composição do Ometz Group como holding se deu em 2008, com a criacão e o crescimento consolidado de várias empresas e áreas do grupo. Na área educacional, o Ometz Group atua com foco em todas as classes sociais por meio de seu mix de marcas, composto por Go Getter, Wise Up, Lexical e You Move. A Wise Up é hoje líder no segmento de ensino de inglês para adultos na América Latina. Para dar respaldo aos nossos mais de 400 franqueados, o Ometz Group dispõe de três empresas, a Wise Up Franchising – franqueadora das marcas Wise Up, Lexical, You Move e Go Getter – a Sparta Consulting – que oferece às franquias soluções específicas de gestão – e o Hunting Winners, que representa hoje a solução de integração entre os profissionais que atuam nas mais de 400 unidades da rede. No âmbito da comunicação, o Ometz Group atua nos segmentos audiovisual, publicitário, editorial e de telecomunicações. A Mindset Films é a produtora do Grupo e dentre os trabalhos já realizados, estão cinco longa-metragens que compõem o material didático de nossas escolas. A Yeah! é uma agência de publicidade que atende clientes no Brasil e exterior e é também responsável pelas ações de comunicação das empresas do Ometz Group. A Skopos Editora é responsável pela criação e distribuição dos materiais didáticos das escolas de idiomas do Grupo, e o Ring One é um Contact Center que atua de forma inteligente e em tempo real.”.

Fiz questão de transcrever a descrição que consta do site da empresa justamente para que vocês possam ter exata dimensão do tamanho do grupo, do qual Dani fez parte desde que voltou ao Brasil, em 1999.

E isso – exata dimensão – é o que me dá a iniciativa que me foi anunciada por e-mail:

“Edu: A partir de 2012 todo ano vamos entregar o Prêmio Danielli Pureza para a escola que demonstrar excelência na educação e na formação de profissionais. O prêmio será entregue na Ometz Conference no dia 06 de janeiro às 15 h, em São Paulo. Gostaria que você entregasse este prêmio no ano da sua criação. É uma maneira de homenageá-la e também de ter certeza de que todas as gerações de professores e coordenadores do Ometz Group saibam da importância que ela teve na história do grupo e de seu crescimento. Com certeza ele não seria possível na área educacional sem a presença da nossa Dani. O premio terá o formato dos desenhos abstratos que a Dani fazia quando estava em reunião, refletindo sobre problemas e suas soluções. Eram desenhos abstratos que ganhavam forma à medida que a reunião caminhava. Ainda não tenho a arte final mas quando tiver te mando. Acho que sempre aprendemos coisas quando as pessoas nos deixam, foi assim com a morte do meu pai e da minha mãe – e este prêmio que levará seu nome pelo menos enquanto eu ainda estiver por aqui para entregá-lo – é uma forma de deixá-la sempre como legado, como forma de dizer sim à vida,tão apaixonada que a Dani sempre foi e é, por educação e pessoas.”

Eu, meus poucos mas fiéis leitores, não preciso, em absoluto, do que quer que seja para ter exata dimensão da mulher que foi e que é a minha garota, hoje bambeando no infinito e me deixando absolutamente perdido por aqui. Mas perceber sua grandeza, também para os outros, é uma experiência indizível, emocionante, dessas de derrubar e amolecer o mais duro dos corações (o que está longe de ser o meu caso, um derretido na mais ampla acepção da palavra).

Ontem à tarde, estando eu ancorado no balcão do Bar Rebouças, chegou-me por e-mail a arte-final do prêmio que entregarei no dia 06 de janeiro, em São Paulo. Fui, ali, diante da beleza da coisa, um homem em frangalhos tomado por uma emoção que até então eu não experimentara. Assim foi apresentada a arte-final, pela agência que a criou:

“No segundo dia da Conference, todos os coordenadores do P&D se reunirão para premiar a escola que, durante 2011, demonstrou maior comprometimento com a educação e a qualidade de ensino. Este prêmio será batizado de “Prêmio Danielli Pureza”, uma homenagem a essa que foi um grande exemplo de zelo pela qualidade dentro das unidades. Seus rabiscos abstratos e num primeiro momento sem sentido, logo tomavam forma e surpreendiam a todos, tal qual sua inexplicável alegria em meio a tantas dificuldades de saúde se vertiam em surpreendentes resultados em seu trabalho. Sempre acompanhada de seu sorriso cativante, Pureza fez do prazer de formar pessoas uma cura tão implacável, que nem o pior dos cânceres poderia detê-la. Um traço simples, puro, retrata toda a grandeza e de seu olhar. Mechas de cabelo feitos em rabisco de mão saem do topo de sua cabeça, representando o quanto sua visão ia além de qualquer debilidade física, ao longo do caminho tornam-se raízes que representam a profundidade de sua dedicação e por fim tomam a forma de mãos que escrevem, mãos que lecionam, como as de Pureza, que tinha em mãos a cura do maior câncer da humanidade: a falta de conhecimento.”.

Ora, bolas… eu, me conhecendo como eu me conheço, já antevejo como será a cerimônia de entrega do prêmio…

Eu terei – sei que terei! – a capacidade mágica, encantada, misteriosa, movido por um misto de saudade, de amor, de alegria e de orgulho, de tornar quase-sagrado o certificado, que há de levar para o(a) vencedor(a) do prêmio, em 2012 e nos demais anos seguintes, o axé, a força, a energia e a grandeza da minha menina.

Meu coração, em ligeiro descompasso, abalado e revigorado diante da beleza em estado bruto que essa iniciativa representa, há de suportar o tranco.

Até.

P.S. 1: torno público meu agradecimento e minha gratidão a esse homem que pensou na homenagem, Sergio Barreto, uma das pessoas que Dani, enquanto esteve por aqui, mais amou e admirou – amor e admiração que permanecem, tenho certeza -, a Flávio Augusto, Presidente do Ometz Group, que com Dani conviveu, profissionalmente, por mais de 12 anos, e a cada um dos funcionários que, também tenho certeza, vibram diante da justíssima lembrança que a eterniza, também, entre eles;

P.S. 2: se você quiser ver e ouvir o Sergio Barreto apresentando, conversando e entrevistando a dona do sorriso mais bonito do mundo, assista isso aqui;

P.S. 3: no dia seguinte ao que recebi tão bonita notícia, o artista plástico Mello Menezes enviou-me um desenho da Dani absolutamente genial, igualmente emocionante, e sobre ele – seu fim! – falarei mais adiante;

P.S. 4: e fechando a semana de beleza intensa, outra notícia de me-derrubar: Luiz Antonio Simas e Candinha, pais do pequeno Benjamin, deram-me a incumbência de apadrinhar o moleque, o que me fez chorar quase o dia inteiro ontem. Eu não tenho mais, disse isso a eles, a coisa mais bonita que eu sempre pude oferecer aos meus afilhados, que é a dinda… Mas serei, lá vai mais uma certeza, o melhor padrinho do mundo pro garoto. A vocês, meus irmãos Simas e Candinha, minha gratidão, meu respeito e minha emoção mais pura.

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AMANHÃ É DIA DE SIMAS

Como amanhã, 02 de novembro, é feriado – dia de pouca audiência nestas plagas, dia de flanar pela cidade – aproveito para fazer, hoje, minha humílima homenagem a esse grande brasileiro que é Luiz Antonio Simas – e peço licença para brevíssima digressão – que aniversaria amanhã.

Sempre me é comovente verificar, com meus próprios olhos, que meu primeiro contato com Luiz Antonio Simas deu-se no dia 18 de agosto de 2006, quando ele deixou o seguinte comentário neste texto aqui:

“Eduardo, sou um leitor assíduo do blog, morador do Maracanã, amigo do peito do grande Rodrigo Ferrari (da inestimável livraria Folha Seca) e admirador das suas campanhas cívicas – sim, cívicas – contra as sem-vergonhices do Jota e dos Leblons da vida. Mas sempre estive em silêncio obsequioso. Hoje, porém, vou me manifestar: sensacional! Como eleitor e admirador do velho, aplaudo de pé a cena! Quanto ao Roberto Talma…nunca me enganou! Francamente… abraço.”

Dias depois, o citado Rodrigo Ferrari, justamente na Folha Seca, tratou de nos apresentar pessoalmente. E ali, naquela tarde, eu o reconheci (já o conhecia, vá entender os mistérios da vida, como lhes contei aqui).

De lá pra cá, já lá se vão mais de cinco anos. Somos – digo sem medo do erro – amigos na mais ampla acepção da palavra, e eu tenho um tremendo orgulho de dizer isso. Professor de História (e eu tenho declarada inveja de seus alunos, ainda que eu me considere, a cada conversa, um aprendiz diante do mestre), conhecedor profundo dos mistérios do invisível, apaixonado – como eu – pelo Brasil e por sua gente, o Simas ocupa, por incontáveis razões, especial lugar na minha vida.

Seja porque somos vizinhos e fanáticos por nossa aldeia, o que nos propicia infinitas conversas pessoalmente, quase sempre diante de um balcão qualquer de qualquer uma das espeluncas que nos comovem, seja porque jamais me negou o apoio na condição de sacerdote que é, e que com uma seriedade rara de se ver ele exerce, seja porque foi em sua casa que tantas e tantas vezes ele me acolheu, na reta final da vida de minha menina (ele que mora na mesma rua do fatídico hospital…), sempre disposto a me secar as lágrimas (e muitas vezes dividi-las comigo) e me molhar o bico com o Red Label que guardava só pra mim… – “Edu, seu remedinho…” – a fim de que eu ajustasse meu pH antes de enfrentar a dureza daquelas visitas…

Luiz Antonio Simas, companheiro da Candinha e pai há pouco menos de um ano do Benjamin, é – em apertada síntese – um presente que ganhei na vida. Lembro – impossível não lembrar – do quanto minha menina vibrou com o nascimento do moleque, que deu-se justo num dia em que estiveram, os dois, almoçando em nossa casa (como lhes contei aqui, no texto Tocologia na Tijuca) – pra profunda alegria da Dani, que sempre que pôde esteve perto do pequeno Benjamin.

Dia desses o Simas pregou-me uma peça, me enviando por e-mail uma porção de fotografias da Sorriso Maracanã em sua casa, onde passou algumas tardes curtindo o primogênito: com ele no colo, trocando suas fraldas, dando banho etc

Hoje, comovidíssimo (eu sempre me comovo no dia do aniversário dos meus), devolvo ao Simas a gentileza, com a fotografia que segue abaixo. É tudo o que desejo a ele pela passagem de mais um dois de novembro: uma vida tão bonita, tão luminosa, tão generosa e tão espetacular quanto o sorriso que se insinua pelos caminhos que sigo, tão escancarado ao lado dele (Dani amava o careca!) naquele primeiro de janeiro de 2008. Ergo o copo cheio de espessa espuma pedindo a nosso pai Ogum – meu e dele! – muita saúde, muita paz e muito amor. Axé, meu irmão. Obrigado por tudo.

Até.

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O RIO, POR LUIZ ANTONIO SIMAS

Já que falei hoje, mais cedo, aqui, sobre o Rio de Janeiro, essa cidade absolutamente fora de série, decidi transcrever alguns trechos de uma recente entrevista que demos, eu e Luiz Antonio Simas, professor maiúsculo as 24h do dia, justamente sobre o Rio. É evidente que as transcrições são todas de falas do Simas, que estava, inclusive, emocionadíssimo nesse dia. Exaltou-se, falou alto, foi veemente quando expôs, de forma despudorada, sua paixão pela cidade em que vive.

“Quando eu falo pra alguém conhecer o Rio de Janeiro, a primeira coisa que eu digo é o seguinte: já é uma cidade interessante pra você conhecer, porque é uma cidade absolutamente improvável. Se você observa, por exemplo, a característica da geografia do Rio, aqui não era pra você ter cidade nenhuma! Porque isso aqui era pântano, era montanha, era alagadiço, era o mar invadindo tudo… Então pra você construir uma cidade aqui, você teve que furar morro pra fazer túnel, você teve que drenar pântano, então é uma cidade absolutamente inusitada. E eu acho que o Rio é a cidade mais sincera do Brasil. Por que? Por conta dessa geografia muito peculiar do Rio… a montanha, o mar… O Rio é uma cidade, por exemplo, que não tem aquela noção clássica de periferia. Quando você chega, por exemplo, a São Paulo, a Belo Horizonte, você tem um centro, você tem uma região que é habitada por uma classe média, por uma classe média-alta, e aí você vai lá pro inferno e lá no inferno você tem a periferia…. A periferia do Rio de Janeiro tá dentro da cidade! O Leblon, que é o bairro de IPTU mais caro, Ipanema, que tem IPTU mais caro… Só que Ipanema tá convivendo com o Pavão-Pavãozinho, o Leblon tá convivendo com o Vidigal, aqui na Tijuca a gente tá convivendo com o Borel, tá convivendo com a Formiga, tá convivendo com o morro do Salgueiro, a gente tá convivendo com o Turano, a gente tá convivendo com a Casa Branca… E isso deu ao Rio de Janeiro uma peculiaridade cultural absolutamente maravilhosa… Isso é muito sério! Quando o Noel Rosa morreu, que é um ícone da nossa cidade… o Zé Ramos da Mangueira fez um samba pro Noel Rosa! O Noel Rosa era o branco, o Noel Rosa era o estudante de Medicina, o Noel Rosa era o aluno do São Bento que subia o morro da Mangueira porque era do lado da Vila Isabel, onde ele morava, um bairro que tinha operário, que tinha classe média… Aí o Zé Ramos faz o samba quando o Noel morre, ele diz (cantando):Chegou a capital do samba / Dando boa noite com alegria / Viemos apresentar o que a Mangueira tem / Mocidade, samba e harmonia / Nossas baianas com seus colares e guias / Até parece que estou na Bahia”. Aí ele diz: “Da cidade alta da Mangueira / Avisto a Vila, sinto saudades de alguém…”. Sinto saudades de alguém! É o Noel! É do Noel! Ele tá lá do alto do morro da Mangueira, e da cidade alta da Mangueira ele enxerga Vila Isabel! Ele enxerga o bairro onde viveu o sujeito de classe média, o Noel Rosa…Que aí subiu o morro, e aí o morro desceu… Então isso deu ao Rio de Janeiro uma peculiaridade! A nossa cidade é uma cidade única! É uma cidade que misturou tudo, é uma cidade de cultura de fronteira, é uma cidade em que a periferia tá dentro dela, o Rio de Janeiro não é uma cidade covarde! Todas as críticas que fazem à minha cidade do Rio de Janeiro são críticas que me fazem cada vez mais gostar do Rio de Janeiro! Porque o Rio de Janeiro não esconde! O Rio de Janeiro é aquilo que ele é mesmo! Eu chamaria um sujeito pra conhecer o Rio de Janeiro, primeiro, pra conhecer uma cidade que é rigorosamente peculiar. Você não vai encontrar outra com essa característica que o Rio tem!

A formação do Rio é muito parecida com Salvador, com São Luis do Maranhão, com o Recife… Na verdade, foram os grandes portos de recebimento de escravos no Brasil… Se você considerar que a gente teve 388 anos de escravidão, quase 4 séculos, a cidade é essencialmente uma cidade de rua, uma cidade negra, que tem essa característica…Aqui, pro Rio, vieram muitos bantos, depois chegam os yorubás, e os saberes africanos tem uma característica peculiar que é a seguinte: a cultura, a vida, ela se passa muito no espaço da rua, no espaço do mercado, a casa é um detalhe! Então o Rio de Janeiro tem uma tradição que eu acho que herdou da África… como Salvador tem, como São Luis tem… como Havana, em Cuba, tem… Esse detalhe é interessante… é uma cidade de rua, é uma cidade de mercado, em que o encontro é no espaço público… De certa maneira, o espaço de civilização entre os africanos é o espaço público. A vida ali se passa na rua… Você chega à Nigéria, à Angola, ao Congo, a rua é o espaço de convívio. E o Rio é uma cidade de rua, as coisas acontecem na rua, é a cidade do mercado, da feira… o Rio é uma das quatro grandes cidades do Brasil que eu chamo de cidades que têm como patrono, Elegbara, Exu… a entidade que cuida da rua, da esquina… Daí a ligação com Salvador, que é conhecida como a Roma Negra…

Se você chegasse no Rio de Janeiro em 1910, você ia observar o seguinte: está surgindo o samba urbano, tal como o conhecemos hoje, como manifestação cultural de comunidades negras… quem faz samba em 1910 é o preto! É o cara que tá batendo tambor, são as macumbas na casa da Tia Ciata, tá rolando aquele babado entre os negros. E o futebol era praticado rigorosamente por branco. Então em 1910, é o branco joga bola e é o preto faz samba. Se você viaja um pouquinho no tempo e chega ao início dos anos 30, o grande ídolo do futebol no Rio de Janeiro é um preto, é Leônidas da Silva, e o grande sambista é um branco de classe média, o Noel Rosa. O Rio é a cidade que permitiu ao branco fazer samba e ao preto jogar bola! Os dois se conheceram, porque o Leônidas chegou a morar em Vila Isabel, o Noel era de 1910, o Leônidas de 1913… É uma circulação tensa e intensa…”

É por isso que eu sempre digo e agora repito: sou um sujeito de sorte por desfrutar do convívio com esse brasileiro máximo que é Luiz Antonio Simas!

Até.

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LIÇÕES DE PEDAGOGIA

Luiz Antonio Simas, brasileiro máximo, meu irmão de fé, respeitado professor de História, é pai de primeira viagem do carioquíssimo Benjamin, que completa amanhã, 21 de maio, dois meses de vida. Garoto de sorte, o Benjamin. A mãe é uma doçura que começa pelo nome – Cândida. E o pai, um caboclo sabido demais, conhecedor dos mistérios do invisível, que carrega nos olhos verdes toda a sabedoria ancestral que nos remete à mata brasileira e sua imensidão encantadora. Pois o Simas, que anda numa alegria comovente por conta do moleque recém-chegado, escreveu um tratado anteontem em seu imprescindível blog, o Histórias Brasileiras. No texto, afirma que “o medo é um instrumento pedagógico da maior eficácia na educação de uma criança”. Só por conta dessa curtíssima transcrição ouço daqui os sapateados histéricos de educadores, pedagogos, psicólogos, quadros do PSOL e quejandos. Mas o que quero lhes dizer hoje é o seguinte: concordo inteiramente com o bardo tijucano, morador da aldeia Maracanã, cuja oca dista pouco mais de 1km da minha. Mas vamos às minhas razões.

Lendo o texto a que fiz referência, e que pode ser lido na íntegra aqui, percebo que os medos que geraram reações pânicas no menino Luiz Antonio foram os mesmos que me foram plantados, enterrados em mim como sapo de macumba (apud Nelson Rodrigues).

Eu era um menino. Uma de minhas tias, casada com um irmão de minha avó, a tia Noêmia, tinha uma casa em Campo Grande, zona oeste da cidade, num condomínio chamado Clube 34, tratado como sítio por toda a parentalha. Pois havia, no tal Clube 34, uma piscina enorme, redonda, funda, e não houve um só dia em que eu não ouvisse de meu pai a frase que gerava uma concordância unânime entre as tias:

- Cuidado na piscina! Olha o garoto que morreu sugado pelo ralo! Morreu, ouviu? Morreu!

E sempre fui, na piscina em Campo Grande, um menino de olhos esbugalhados diante da possibilidade da sucção fatal.

Eu era um menino. Papai me dava semanada, nunca me deu mesada (vá entender). E dizia, todos os dias, ao me deixar no portão da escola:

- Compre sua merenda na cantina, viu? Apenas na cantina! Esse moço da carrocinha coloca cocaína nas balas que vende. Sabe o que é cocaína?

Eu, trêmulo, com a pequena mochila no colo no banco de trás do carro, dizia que não. E papai, soturno pelo retrovisor:

- É um pó, meu filho, uma droga. Vicia. Vicia e mata. Como o ralo das piscinas, entendeu?

E na hora do recreio eu comprava meu Mirabel na cantina e olhava, com intensa piedade, para os colegas que atravessavam o portão em direção à carrocinha, como se fossem pré-cadáveres à beira da morte.

Eu era um menino. E exatamente como o mestre Luiz Antonio, evitava ir ao banheiro sozinho durante as aulas. Lá estava, é claro, a Belmel, a loura defunta, de algodões ensangüentados nas narinas, disposta a vingar o filho que morrera antes dela.

Eu era um menino, e assistia sempre, estarrecido, um diálogo recorrente entre minha bisavó, Mathilde, e minha tia (sua irmã), tia Idinha. Leque fremindo numa das mãos, dizia minha bisavó:

- Idinha, espia. Não vá esquecer do espelhinho quando eu morrer.

Tia Idinha fazia o sinal da cruz:

- Pidôca, isso se você morrer antes. Se eu morrer antes, veja lá, não vá esquecer do espelhinho!

Dava-se o seguinte: o ator Sérgio Cardoso, cujo corpo havia sido exumado, fora encontrado de bruços dentro do caixão. A tampa do dito cujo estava marcada, por dentro, pelas unhadas vigorosas que o pobre-diabo dera depois de acordado a sete palmos do chão, fruto do desespero diante da situação. Vai daí que espalhou-se pela cidade, pelo país, o pânico. Ser enterrado vivo era o medo súbito de toda uma geração. E minha bisavó tinha a tática infalível:

- Idinha… Você não se importe com a reação da assistência na capelinha. Aproxime-se de meu corpo e deixe durante um bom tempo o espelhinho diante de minhas narinas. Se embaçar é batata. Estou viva. Não pemita que fechem o caixão, entendeu?

Eu, molecote, tinha pesadelos horripilantes.

Numa só noite eu estava nadando no Clube 34 e era sugado pelo ralo. Dado como morto. Velado por uma família inconformada. E acordava aos berros quando me percebia vivo no caixãozinho já fechado. Noutra noite, atravessava o portão do colégio e comprava uma bala Soft na carrocinha. Era um zumbi, minutos depois, flechado pelo vício da cocaína e fadado a viver por aí perambulando em busca de mais pó. Noutra noite, ainda, eu era acometido por uma diarréia violenta durante a aula de Estudos Sociais e sentado no vaso do banheiro do colégio Palas via agigantar-se diante de mim o vulto impressionante da loura assassina.

Uma infância tranqüila, como se vê.

Hoje, percebo tristíssimo que são pueris os medos da garotada. Medo de que se quebrem os controles do Wii. Medo de que caia a conexão da banda-larga. Medo de que sejam hackeados os perfis do Orkut ou do Facebook. Medo de que acabe a bateria do celular no meio da rua… Uma falta absoluta de encantamento, uma ausência completa de um pânico-humanizado capaz de mostrar à molecada a finitude do homem, sua falibilidade e seus limites.

Entro, pois, de cabeça, na campanha lançada por Luiz Antonio Simas. Meus afilhados que se cuidem. Os filhos e filhas de meus amigos, de meus vizinhos, todos que se preparem!

Até.

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